Page 36 - Girassóis, Ipês e Junquilhos Amarelos - 11.11.2020 com mais imagens redefinidas para PDF-1_Neat
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Finalmente, com suprema cautela, rosnando baixinho, a raposa moveu-se
para trás sem se voltar e sem desviar os olhos do lugar suspeito por um
segundo sequer. Movendo-se sempre de ré, entrou novamente para a
segurança da toca de onde ficou espreitando a rocha misteriosa.
Enquanto isso, Mahoo o puma, abaixou-se bem rente ao solo e começou a
subida em direção ao platô, engatinhando. Com os olhos de fogo voltados para
aquela direção perturbadora. As garras e os dentes à mostra e os pelos do
lombo eriçados, com os músculos retesados prontos para o salto de ataque ou
para a fuga salvadora. Chegou à entrada da caverna na qual a raposa o
esperava e com um pulo alcançou o interior e a proteção do rústico abrigo.
Lá de dentro, protegidos pela sombra da pedra que se projetava sobre o platô,
ficaram os dois amigos em imóvel expectativa.
Assim passaram-se horas.
A sabedoria do mundo selvagem ensina que sempre que algo é
incompreensível a ponto de não ser possível acreditar nos sentidos, ou sempre
que há dúvida sobre como agir, o melhor a se fazer é absolutamente nada.
Manter a calma, cultivar o silêncio, permanecer tranquilo e quieto até que a
dinâmica da vida mostre a melhor ação a adotar e o caminho a seguir.
Para Cesar Ninan, incorpóreo, sem peso, insensível, o tempo não era um
problema. Poderia permanecer ali, no alto da pedra vermelha, eternamente.
Pairando em frente à caverna sobre a rocha solitária, até que sua própria
passividade provasse aos animais não representar perigo algum.
Veio à noite e seguiu-se o amanhecer, passaram-se as horas arrastadas do dia.
Veio à noite mais uma vez e mais um amanhecer.