Page 46 - MOSAICOS 2018_Neat
P. 46
A quem me persigo?
Tão intrigante quanto a busca pelo verso
é a busca inconsciente do poeta por si mesmo.
Busca que o assombra, assusta e ofusca
por fugir ao seu frágil e inábil controle;
por vasculhar o seu íntimo de forma avassaladora;
por revirar seus esconderijos e suas escolhas;
por colocá-lo em risco diante de um precipício.
Busca que é mescla de capricho, de falta de siso
e que o deixa ao mesmo tempo aflito
e em aparente paz consigo.
A pergunta
que ele se faz é óbvia e fugaz:
— O que persigo com tanto afinco?
A resposta
é a previsível para os que fingem e se omitem:
— O verso que me traga prazer, sorriso e abrigo.
Mas a pergunta
que deveria ser feita é outra e mais de uma:
— A quem persigo e por quem sou
perseguido enquanto redijo?
Neste caso,
o poeta recusa o verso que lhe soa perverso:
— É a mim que persigo e de mim sou inimigo!
46