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A quem me persigo?


                    Tão intrigante quanto a busca pelo verso
                    é a busca inconsciente do poeta por si mesmo.
                    Busca que o assombra, assusta e ofusca
                    por fugir ao seu frágil e inábil controle;
                    por vasculhar o seu íntimo de forma avassaladora;
                    por revirar seus esconderijos e suas escolhas;
                    por colocá-lo em risco diante de um precipício.
                    Busca que é mescla de capricho, de falta de siso
                    e que o deixa ao mesmo tempo aflito
                    e em aparente paz consigo.

                    A pergunta
                    que ele se faz é óbvia e fugaz:
                    — O que persigo com tanto afinco?

                    A resposta
                    é a previsível para os que fingem e se omitem:
                    — O verso que me traga prazer, sorriso e abrigo.

                    Mas a pergunta
                    que deveria ser feita é outra e mais de uma:
                    — A quem persigo e por quem sou
                    perseguido enquanto redijo?

                    Neste caso,
                    o poeta recusa o verso que lhe soa perverso:
                    — É a mim que persigo e de mim sou inimigo!












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