Page 26 - Jornal Golfinho - Edição Dezembro 2018
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PÁGINA 26 MEMÓRIA E COLUNA
Histórias de cinemas (2)
quartel dos bombeiros. No final da década de
1970, passou a se chamar Cine Studio Ilha,
dedicando-se à exibição de filmes sobre lutas
marciais. Com a concorrência da televisão,
o Cine Guarabu deixou de exibir os suces-
sos internacionais do momento, passando
a apresentar filmes nacionais, notadamente
aqueles produzidos na chamada “Boca do
Lixo”. Encerrou suas atividades como cinema
em maio de 1982, mas o prédio ainda se en-
Jaime Moraes (59) contra de pé. Ainda na década de 1950, um
senhor chamado Alcino construiu um cinema,
O Cinema Itamar, na sua época, era o batizado de Cine São José, em um terreno
maior da Ilha, com 805 lugares. Embora não de fundos da Vila Pan-Americana, e que fun-
fosse equipado com ar condicionado, tinha cionou durante 10 anos. Era uma construção Cine Guarabu, na década de 1970,
dois enormes exaustores de ar ao lado da em madeira, com 150 cadeiras, onde foram em foto de Arthur Fróes
tela e uma série de janelas, acionadas por exibidos clássicos como “Imitação da Vida” e maioria estacionava seus carros na calçada
cordinhas que, tão logo escurecesse, eram “Músicas e Lágrimas”, em versão para proje- bem defronte ao cinema, onde o proprietá-
abertas. O pitoresco é que no verão, ao serem tores de 16 milímetros. O início das sessões rio, Sr. Amandio Ferreira Barbosa, recebia
abertas as tais janelas, o cinema era invadido era anunciado por um sistema de alto-falan- os frequentadores ao lado de seu Chevrolet
por bandos de andorinhas que projetavam as tes local, que tocava “Moonlight Serenade”, Camaro azul. Em 1973, o proprietário acabou
suas sombras sobre a tela. Como em todos os de Gleen Miller. Como a projeção era feita com por vender o imóvel para o Bradesco, que
cinemas, um enorme cartaz informava: “De um único aparelho, sempre havia uma breve demoliu o prédio, construindo, a seguir, uma
ordem da polícia é proibido fumar”. interrupção, quando as luzes eram acesas agência bancária. Durante muitos anos, os
Em abril de 1950 foi inaugurado o Cine para que o rolo de filme fosse trocado. Em moradores da Ilha passaram a dispor de um
Guarabu, com capacidade para 380 espec- 1965, nas comemorações do IV Centenário único cinema, o Ilha Auto–Cine. A ideia de
tadores, distribuídos em um salão e um da Cidade do Rio, foi inaugurado na Estrada criá-lo surgiu quando Arnélio Tinoco, sócio de
“mezanino” com cerca de 100 lugares. Como da Cacuia, 126, o Cine Mississipi, trazendo Mauro Silveira, fez uma viagem aos Estados
tantos outros cinemas de subúrbio, quando para a Ilha uma sala de espetáculos que nada Unidos na década de 1970, onde existiam cer-
de sua inauguração, o proprietário era tam- ficava a dever aos cinemas mais luxuosos do ca de 5 mil cinemas ao ar livre. Motivado pela
bém o maquinista responsável pela projeção, Centro e Zona Sul. Poltronas estofadas, ar possibilidade comercial do empreendimento,
enquanto parentes próximos atuavam na bi- condicionado e cortinas acionadas mecani- em 1975, inaugurou o Ilha Auto-Cine, com
lheteria e como lanterninha. Costumava-se a camente destacavam-se entre as novidades. cerca de 400 vagas e um moderno sistema
dizer, naquela época, que o cinema ideal para Contando com 1.200 lugares, foi inaugurado de projeção, chegando a acolher mais de 2
a Ilha seria uma mistura dos três existentes: com o filme “As Bonecas”. Um dos símbolos de mil espectadores por semana.
a sala de projeção do Itamar, os filmes do suntuosidade era a cortina azul, com motivos Com o advento da TV a cabo e a degra-
Cine Jardim, na Ribeira, e os equipamentos marinhos, que permanecia fechada durante dação da Praia de São Bento, ocupada por
do Guarabu. Como ficava na Rua Sargento os intervalos, abrindo-se parcialmente quan- inúmeros quiosques, que dificultavam o aces-
João Lopes, paralela à Estrada do Galeão, do eram projetados os comerciais, tal como so dos automóveis, acabou por encerrar as
para anunciar seus filmes, havia sempre os cinemas mais sofisticados. Como o núme- suas atividades em 2007, com o filme “Sem
um cartaz no ponto de ônibus defronte ao ro de veículos na Ilha ainda era reduzido, a Controle”, estrelado por Eduardo Moscovis.
A importância das Clínicas da Família
Rosa. Logo após, foi inaugurada a Assis Valen- da família, os números de óbitos por esses
te, nas Canárias, e, em 2016, a Clínica Wilma casos são cada vez mais raros. Pois não há
da Costa, no Cocotá. Esses equipamentos já um morador das comunidades da Ilha que
viraram patrimônio da população insulana. não tenham acesso à saúde preventiva nas
Com elas, nosso povo ganhou mais qualidade Clínicas da Família e postos de saúde. Fico
Carla Pereira (40) de vida. Nelas, os profissionais são divididos muito preocupada quando vejo que há o risco
por equipes responsáveis pela sua área. Ao de demissões dos nossos agentes, o risco de
Hoje eu não consigo imaginar a nossa po- chegar à unidade, o usuário é acolhido por fechamento de alguma unidade, esse retro-
pulação – principalmente os mais carentes, um profissional e é orientado e atendido de cesso é incompreensível. Ao meu, ver as
idosos e crianças – sem os atendimentos das acordo com sua necessidade. Me emociono ao Clínicas da Família deveriam ser prioridade,
Clínicas da Família, que cuidam desde o bebê lembrar do trabalho excepcional dos agentes os agentes de saúde deveriam ser vistos
na barriga da mãe ao idoso debilitado, além de saúde que visitam as residências e, como como multiplicadores de uma cidade mais
dos portadores de necessidades especiais que formiguinhas quase invisíveis, vão nos becos, saudável. Quem investe em saúde preven-
possuem dificuldades para se locomover até nas vielas, sobem morros, entram em favelas, tiva não gasta em hospital e no tratamento
uma unidade de saúde. Muitos desses viviam de segunda a sábado, para salvar vidas que, de doenças com níveis avançados e diminui
à míngua nas nossas favelas. As Clínicas da sem este serviço, muitas já estariam perdi- drasticamente os números de mortalidades.
Família são um marco que representa a re- das. Participei da luta para trazer a primeira Vamos torcer para que esse fantasma de
forma da atenção primária. O modelo tem Clínica da Ilha, como fui nascida e criada na demissões um dia passe. Esse pessoal que
como objetivo focar nas ações de prevenção, Praia da Rosa, afirmo que, antes, perdíamos tanto ajuda nossa população está há mais de
promoção da saúde e diagnóstico precoce de muitos moradores por pressão alta, infarto, 2 anos sem dormir em paz e as famílias que
doenças. Há pouco mais de 7 anos chegava tuberculose, DST’s, entre outras doenças são atendidas pelas unidades também sofrem
a primeira clínica da Família na Ilha: batizada que hoje, com o atendimento preventivo dos com tantas especulações de perdas que serão
de Maria Sebastiana de Oliveira, na Praia da médicos, enfermeiros e agentes de saúde irreparáveis para todos os lados.