Page 35 - ARCANO XIII
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SARAVÁ


























        a lentidão com que agora se movia era de reverência. com o tronco curvado ainda andou
        de costas até a porta e só após cruzá-la virou-se para atravessar o jardim que separava
        o pequeno barraco chamado terreiro da casa em que vivia. dois degraus de madeira
        e já estava na cozinha passando café com a água fervida. a visão da garrafa térmica,
        presente de filha, interrompeu por um instante o pensamento absorvido pelas tarefas
        que fazia porque assim devia fazer, mas que traziam o bônus de aliviar o pensamento
        ao ocupar os dedos. rapadura e pé de moleque, cumbucas no escorredor da pia, mel
        e dendê [se veio à mente melhor levar]. ficou ainda um tempo parada mirando o nada,
        tentando lembrar se esquecia qualquer coisa da cozinha. nada. de volta ao jardim, pediu
        licença como se houvesse ali alguém e quebrou um galhinho de arruda, depois se curvou
        e fez o mesmo com cinco margaridas amarelas, de um canto onde havia centenas delas.


        moveu o toco pesado inclinando-o de lado e girando, curvada, até o canto perto da
        mesa, e sentou. ao sentar-se pareceu cansada. se ergueu mais uma vez para alcançar
        os palheiros no outro canto da mesa e retornou ao toco que lhe servia de banco. entre
        os pés pretos descalços que tocavam a terra batida acomodou o prato candelabro
        com sete lugares ainda vagos e acendeu uma vela branca, cantarolando baixinho um
        canto que falava em Oxalá velhinho, depois acendeu outra vela branca, uma roxa e uma
        amarela, e começou a entoar sussurrando “Saravá Vó Joaquina, Saravá o seu Congá...”
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