Page 26 - Edicao 5217 # 16-03-2018
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                                                                                                                                           16 Março, 2018






              UM LIVRO POR SEMANA / 562/ JOSÉ DO CARMO FRANCISCO                         INTERVALO DOLOROSO                  A GALINHA DA VIZINHA…
              «Dicionário do nosso falar» de Joaquim do Nascimento                       Irás ao Paço                         Óbidos e Caldas: trabalhar em conjunto

                                    tal de 1456 entradas. A   tima ou por fi m a palavra «guião»   De vez em quando pedem-me poemas, poemas es-  Há dias realizou-se uma iniciativa no CCC digna de
                                    primeira palavra é abada   -  «estandarte,  grande bandeira   critos por outros que sirvam de epígrafe em traba-  registo: uma passagem de modelos em chocolate.
                                    («conjunto de coisas que   que abria as procissões solenes,   lhos, relatórios, teses. Conheces algum poema sobre  Não tendo eu qualquer apetência por passagens de
                                    se podem meter e levar   em volta do povo. O nosso guião   violência doméstica? E lá encontro um poema sobre  modelos, e muito menos de chocolate, pergunta o
                                    no avental»)  e  a última  é   era mais alto do que a igreja e, por   violência doméstica. E sobre assédio no trabalho?  leitor porque será tal coisa digna de registo. Explico.
                                    zumba-catrapumba: «ono-  isso, a sua vara se guardava es-  Arranja-se. Estou a escrever uma tese sobre a repro-  O convite era conjunto, dos senhores presidentes
                                    matopeia para imitar o ruí-  tendida ao longo da nave. Depois   dução de caracóis, conheces algum poema que sir-  dos municípios de Caldas da Rainha e Óbidos, o que
                                    do de alguém a cair ou de   de armado era encostado à pare-  va para epígrafe? O Woody Guthrie dizia que qual-  é um feito incomum.
                                    alguma coisa a ruir».   de exterior, ao lado da porta prin-  quer assunto podia servir de tema para uma canção,  Com estratégias locais muitas vezes coincidentes
                                     Mais do que um simples   cipal, onde aguardava a hora da   mas não estou a ver quanto a reprodução de molus-  com os limites dos concelhos, com personalidades
                                     armazém de palavras,   procissão, não sem que entretan-  cos gastrópedes possa ter de inspirador. Esta cisma  à frente dos mesmos de costas voltadas (o que era
                                     este dicionário acaba por   to os rapazes medissem forças e   do poema em epígrafe tem muito que se lhe diga.  público e notório num passado recente, mas parece
                                     ser também (e ao mesmo   o passeassem à volta do adro. O   Recordar-se-ão da mulher de um conhecido político  estar ultrapassado), com as típicas quezílias de vizi-
                                     tempo) um inventário e   nosso guião era de brocado ru-  a citar Alexandre O’Neill durante uma acção de cam-  nhos, todos perdem. E todos ganham quando a po-
                                     um ensaio de antropolo-  bro, com um cordão de duas bor-  panha. Fica sempre bem, citar poetas, para mais num  lítica de desenvolvimento de cada um dos concelhos
                                     gia. Nele surgem palavras   las que dois homens seguravam   país que celebra a sua identidade soprando velas a  se insere em espaços mais amplos, abrangendo dois
                                     com um sentido diferente   para ajudar ao seu equilíbrio. Não   um dos maiores.   ou mais municípios, ou coincide com a Comunidade
       Neste seu oitavo livro publica-  daquele que existe na minha ter-  era para todos levar o guião à vol-     O poema-epígrafe tem as suas variantes. À laia de  intermunicipal ou ainda se junta a outros concelhos,
       do Joaquim do Nascimento re-  ra natal (Santa Catarina – Caldas   ta do povo, do princípio ao fi m da   síntese, falamos da função decorativa da arte. Isto  numa geometria que pode variar atendendo ao ob-
       toma o conteúdo do seu primei-  da Rainha) e é o caso de «ciei-  procissão, o que constituía uma   de ser epígrafe é como ter pins para troca, intercâm-  jeto da cooperação em vista.
       ro título de 2008 («Uma memória   ro» - vento de Leste, seco e frio.   afi rmação de virilidade, como   bio cultural capaz de reduzir o essencial a acessório.  O convite conjunto do Fernando Tinta Ferreira e do
       de Pereiros») no sentido em que   Outras soam a familiares como   saltar de ponte ou mergulhar no   Gazeta das Caldas, 23 de Fevereiro, página 9: o pre-  Humberto Marques – aqui vai uma saudação para
       este  «dicionário»  regista uma   por exemplo «chião» - carro de   açude  do gato,  mesmo  sem  sa-  sidente da Câmara de Caldas da Rainha oferece ao  ambos –, com vista a este evento pontual, trouxe-
       memória de saudades: «a igreja,   bois na linguagem infantil ou «pi-  ber nadar. Que terá sido feito do   presidente da Câmara de Le Raincy uma serigrafi a de  -me a esperança de que os tempos estejam mesmo
       o forno, a fonte da aldeia, o vi-  cota» - burro de tirar água do   nosso guião que enfunava o pano   Ferreira da Silva. A fotografi a da praxe ilustra o mo-  a mudar. Que haja e se reforcem iniciativas concer-
       nho novo, a azenha, as acácias, a   poço. Sem esquecer «cabrada» -   ao vento ligeiro da Páscoa e qua-  mento, fotografi a típica, vulgar, comum, tão inofen-  tadas quanto à linha do Oeste, ao novo hospital, à
       oliveira do adro, a escola velha, a   rebanho  de  cabras  ou  «taleiga»   se voava como as caravelas de an-  siva como o poema-epígrafe. Imaginemos os dois a  Lagoa de Óbidos, à animação turística, à oferta cul-
       estrada nova, a curva-cega, o pa-  - saco pequeno de pano feito de   tanho ou como o rabelo lesto que   passearem para os lados dos “Jardins da Água”, Tinta  tural, aos transportes públicos… A maior parte das
       redão do adro, o calvário, a ale-  retalhos. Ou ainda «almoço» - re-  desce o Douro, lá ao fundo?!»     a tentar explicar a relevância do grafi to sobreposto  questões que preocupam os munícipes e os autarcas
       luia de segunda-feira de Páscoa,   feição tomada a meio da manhã   (Edições COSMOS, Nota de con-  à obra do Mestre, que o parque de estacionamento  destes dois concelhos são comuns. Logo, impõem-se
       a roupa a corar ao sol na lamei-  e «coça» - pancadaria, tareia. No   tracapa:  José  António  Fontão   ao largo foi uma liberdade poética, modo contempo-  ações comuns, impõe-se convergência.
       ra do Salvador, a imponência dos   segundo caso temos a expressão   Tulha, Apoio: Associação dos   râneo de dar continuidade à instalação, introduzin-  No longínquo ano de 1946, Luís Teixeira, ilustre cal-
       sobreiros, o campo da bola e tan-  «Só se perderam as que caíram   Amigos de Pereiros, Junta de   do entre a “Mãe d’Água” e o Chafariz das Cinco Bicas  dense, presidente da comissão organizadora da bi-
       tas outras coisas…»      no chão» que o livro defi ne como   Freguesia de Pereiros e Município   elementos acutilantes, os veículos. E então o senhor  blioteca pública das Caldas da Rainha, em reunião
       O dicionário tem 223 páginas e   sentimento de satisfação pela jus-  de S. João da Pesqueira)  Genestier perguntaria pela água, ao que o senhor  que se realizou no Casino do Parque, a 23 de novem-
       engloba 1197 palavras mais 259   teza de um correctivo aplicado a          Tinta lembraria que a seca extrema atingiu 75,2% do  bro, pedia para o turismo local uma “nova orienta-
       expressões idiomáticas num to-  alguém ainda que de forma ilegí-           território continental.              ção” e “mais largas perspetivas”. Dizia: “Deve (…)
                                                                                     Outra variante do mesmo problema chega-nos  ter por base em vez de ‘só a localidade’, ‘a locali-
                                                                                  da Direcção Regional da Cultura do Centro. Celeste  dade e a região”. E continuava: “Exige-se, primeiro,
                                                                                  Amaro, responsável pelo organismo, mostrou-se sa-  bom entendimento entre os organismos dirigentes
              CATÓLICOS DO OESTE                                                  tisfeitíssima com uma companhia de teatro de Leiria  da ação turística nas localidades abrangidas pelos li-
              O Papa Francisco e as nossas crianças                               que não a “incomoda” com pedidos de apoio. É de  mites da zona; segundo, a organização de uma pro-
                                                                                  facto um aborrecimento, ter de dar resposta a can-  paganda inteligentemente  fundamentada na rea-
                                                                                  didaturas que consigam responder às exigências  lidade turístico-geográfi ca;  terceiro, conseguir o
       Ter iniciativa é criar situações por   que orienta os seus alunos para a   tirarmos, a luz apaga-se e tudo se   kafkianas de plataformas enrodilhadas em “burro-  estabelecimento de uma rede de transportes cole-
       vezes inéditas que excedem as ex-  alegria, fraternidade e respeito pe-  torna falso, aparente.”   cracias” sem fi m. O elogio da auto-sufi ciência em  tivos apropriada. Quanto às atrações, devia partir-se
       pectativas. A este propósito, divul-  los direitos humanos, no compro-  A linda carta do Papa Francisco em   matéria de artes pode ser compreensível, tal como o  do princípio de que nada do que se passasse dentro
       gamos aqui um acontecimento sin-  misso responsável entre Família e   resposta aos nossos alunos, termi-  poema de Sophia “Camões e a Tença”: «Irás ao Paço  da área da referida zona turística (…) seria estranho
       gelo e que marca toda a diferença   Sociedade.    na com votos de que JESUS esteja   irás pacientemente / Pois não te pedem canto mas  aos interesses das Caldas da Rainha nesse campo.”
       na nossa relação como pessoas e   Destacamos a referência muito par-  sempre presente nas nossas vidas.   paciência // Este país te mata lentamente». Afi nal  Passados mais de 70 anos, são surpreendentemente
       até no despontar de personalida-  ticular que o Papa Francisco nos di-  Esta é seguramente mais uma ex-  é tudo uma questão de prioridades, deixa-se o ar-  atuais as palavras de Luís Teixeira.
       des que se vão formando.  rige “com muitos beijinhos e vo-  periência enriquecedora na forma-  tista viver do ar, faz-se o download, imprime-se a
       Em Dezembro passado, quando fa-  tos repletos de amizade e gratidão”   ção humana dos nossos meninos,   República ideal: sem poetas, sem farsantes, apenas   Cristina Rodrigues
       lávamos a crianças de 7 / 8 anos so-  (…) por nos querermos “encontrar   que dia-a-dia aqui no Colégio de Nª   tecnocratas e vendedores de telemóveis, amadores   gouvarinho@hotmail.com
       bre o Natal e o aniversário do Papa   juntos na Gruta de Belém: O Deus-  Senhora de Fátima se vão prepa-  sem amantes, trolhas, tocadores de rabeca a comer
       Francisco, um menino lembrou-se   Menino que nasce, a comunidade   rando para os valores e para a vida.  de esmola a cultural ofi cial e ofi ciante. Não incomoda
       que poderíamos escrever uma car-  paroquial de Caldas da Rainha que   Depois desta alegria, até teríamos   nada, é um descanso para a alma.
       ta ao Papa por estes dois felizes   O procura e o Papa que não se can-  agora outro motivo para escrever      Está-se mesmo a ver onde isto vai dar. Numa mes-
       acontecimentos.          sa de O mostrar presente em to-  ao Papa Francisco: muito em breve   ma semana fi cámos a saber do fecho de mais duas
       Estávamos numa sala de aula 1º   dos os homens e mulheres de boa   iremos plantar quatro árvores, as   livrarias exemplares, uma em Lisboa, outra em
       Ciclo, do Colégio de Nª Senhora de   vontade.”    quais fi carão ao cuidado dos alu-  Coimbra. E mais uma editora, lá para as bandas do
       Fátima – Centro Social Paroquial de   É interessante notar que a carta do   nos de cada um dos quatro anos de   Porto. Por que será? Só encontro uma razão, o facto
       Caldas da Rainha – e entre muitas   Papa Francisco, no seu «Obrigado»   ensino deste Colégio. É um gesto   de há muito tempo andarem a fazer da cultura neste
       sugestões e braços no ar, ali se afi r-  remete  -nos  para o  presépio  da   já há muito planeado, mas que vai   país uma epígrafe. Não se formam públicos, defor-
       mou uma sugestão a que demos   Gruta  de  Belém  onde  vemos  “a   ao encontro do sentido ecológico   mam-se leitores, deixa-se o património ao abando-
       seguimento: os meninos escreve-  glória do Deus-Menino”, que pro-  do Papa, na defesa e preservação   no, descaracterizam-se os centros históricos cedendo
       ram uma carta ao Papa.   cura que cada um de nós” (e cada   da natureza.   à especulação imobiliária, que não se incomoda nada
       Já sem esperarmos qualquer rea-  um dos nossos meninos do 1º Ciclo)   Como estes gestos nos enchem de   com a cultura, semeia-se a superfi cialidade para se
       ção por parte do Vaticano – quase   seja “uma pessoa luminosa, com a   alegria e confi ança, sabendo que   colher estupidez. Reza-se para que o artista não bata
       que nos havíamos esquecido desta   luz que emana do Menino”. E acres-  estamos a preparar as crianças de   à porta. Burros, mas felizes, seremos todos epígrafe
       iniciativa – eis que recebemos uma   centa “Se no centro estiver Jesus,   hoje no humanismo que defenderá   de nós mesmos. Se julgam que estou a ser trágico,
       carta da Secretaria de Estado, a   então também o que está à volta,   a sociedade do amanhã!  aguardem as cenas dos próximos capítulos. Tal como
       qual nos encheu de espanto e gran-  ou seja, as luzes, os sons, as várias   Camões aguardou pacientemente pela tença.
       de alegria: O Papa respondia à carta   tradições locais, inclusive os ali-  Regina Cunha e Diác. Romero
       que lhe havíamos enviado!  mentos característicos, tudo con-  paroquiacaldasdarainha@              Henrique Fialho
       Logo esta alegria foi partilhada em   corre para criar a atmosfera de fes-  gmail.com      fi alho.henrique@gmail.com
       todas as salas de aula da Instituição   ta, mas com Jesus no centro. Se O
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