Page 23 - Edicao 5217 # 16-03-2018
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Um dos artigos de Walter Haubrich sobre o 16 de Março e situação política portuguesa
José Oneto fala da guerra colonial em Portugal, do Pacto Ibérico e dos militares que se opunham a Marcelo Caetano
foi pacífi
condenou.
co?
ção de Spínola”.
que houvesse disparos.
GC - Como acabou por ter.
JO – Sim e fiquei lá dois dias.
iria ter repercussões em Espanha.
Exército com o que se estava a passar em Portugal.
Spínola que é, claramente, o homem do momento.
JAssociated Press que também se deslocou às Caldas.
Quem eram os cin
Haubrich escreve ainda que a sublevação do RI5 “não teve como obje-
questiona os motivos da guerra colonial e se Caetano se consegue man-
ração de Spínola”. Referindo-se ao golpe das Caldas, refere que o ge-
16 Março, 2018
E conta que a coluna das Caldas e as tropas leais ao regime (GNR) es-
tivo fazer um golpe de Estado, mas essencialmente opôr-se à exonera-
Gazeta das Caldas
sobre Portugal não era informação de política internacional. Era informa-
clandestinidade. Romero era claramente um membro destacado da opo-
Portugal” seguido de um subtítulo “Oficiais protestam contra a exone-
acompanha José Oneto na sua viagem a Portugal. Acaba por publicar
osé Oneto é provavelmente o único sobrevivente visto que três já
JO – Exactamente. Enfim, a chamada foi feita ao presidente do Conselho
mo verdade. No nosso entendimento, o conflito português era também
Madrid do Frankfurter Allgemeine Zeitung e é nessa qualidade que
Walter Haubrich (1935-2015) foi durante 33 anos correspondente em
neral não teve nada a ver com este levantamento, mas também não o
porque é que estávamos a noticiar com este destaque todo um conflito
Frankfurter publica um primeiro artigo titulado “Tensão e incerteza em
morreram e não se consegue saber o nome do correspondente da
primeiro que o seu colega espanhol porque trabalhava para um diário
e Oneto para uma revista semanal. Logo no dia 18 de Março de 1974 o
um momento chave para Espanha. Porque isto [o 16 de Março] poderia ter
“300 soldados que não queriam morrer em vão em África marcham de
Do ponto de vista político, havia uma ligação entre o regime de Franco e
uma análise da situação política portuguesa, muito centrado no general
ter no poder. E revisita os factos do 16 de Março com um tom irónico:
No dia seguinte, o jornalista alemão publica novo artigo, desta vez com
Mas no dia 20 de Março volta a falar das Caldas da Rainha. O artigo
JO – Claro, como afinal acabou por ter, com o 25 de Abril. O maior receio
tiveram frente a frente à entrada de Lisboa durante algum tempo, sem
–
c
da altura.
GC - Telexes?
como se fosse ontem.
tavam ali, automáticas...
últimos a passar a fronteira.
16 Março, 2018
P – E deixaram-te entrar em Caxias?
primeira página que titulei com O Terror.
sar ao seu quartel. E eles assim fizeram”
Gazeta das Caldas
GC - Como viveste o 25 de Abril em Lisboa?
baram por produzir-se mais tarde, no 25 de Abril.
O CORRESPONDENTE DO LE MONDE
1969, chegou a retirar-lhe a carteira profissional de jornalista.
intensidade em toda a minha vida
vam em Portugal, não deixaria de avisar o seu amigo jornalista.
com flores nas metralhadoras... Foi uma história realmente maravilho-
Eu entro com o Haubrich e vou a umas máquinas de escrever que es-
JO - Eu vivi aquela jornada... Aquilo foi maravilhoso! Quando as pes-
soas invadem o quartel general da PIDE, enfim, aquilo já era uma au-
horas depois... Enfim, aquilo do 25 de Abril foi uma coisa maravilho-
estrangeiro que tinha um problema com o seu exército. Havia aí con-
assunto na capa da revista, evidenciámos o valor que isto tinha en-
vez com o Walter Haubrich. Aliás, fomos os últimos a passar a frontei-
sa. Eu nunca pensei que poderia vivê-la. Aquilo parecia... Enfim, gen-
fou, mas o processo é imparável”. Falaste com as pessoas certas
dois jornalistas stop um espanhol José Oneto e um alemão Walter
têntica revolução. Foi fantástico. As ruas cheias de gente, os soldados
Haubrich”. É o último telex que eu vejo vindo da fronteira de Badajoz
GC - A verdade é que acertaste em praticamente tudo naquilo que
eu vivi com mais intensidade em toda a minha vida e que eu recordo
ra de Badajoz antes dela fechar. Eu sei isso sabes como? Porque umas
te feliz, alegre, beijando os militares, os militares a pôr as flores nas
espingardas. Foi emocionante. Foi um dos eventos jornalísticos que
da Grândola Vila Morena e isso, fui imediatamente para Lisboa. E outra
JO – Isso! Uns telexes!... E o último telex da fronteira dizia “entram
porque fecham-na logo a seguir, depois de termos passado. Fomos os
levava a valorizar a história e a levá-la à primeira página. E a prova é
comitância entre o Exército espanhol e o Exército português que nos
quanto política interior espanhola e não um mero assunto de um país
JO – Sim. Eu consigo a entrevista devido a uma familiaridade do nome
sa... Eu entrei no quartel-general da PIDE! Quando as pessoas entram
José António Novaes estava ligado à História recente de Espanha e
José António Novaes (1925-1993) é correspondente do Le Monde e mui-
que tivesse avisado José António Novaes. É que nesse mesmo ano
Caldas para Lisboa. Um motim – mas um motim à moda portugue-
no livro. E se o advogado estava tão bem informado do que se passa-
típica dos portugueses, persuadidos de que seria uma boa ideia regres-
que denunciavam a ditadura franquista. Por isso foi várias vezes detido
to conhecido em Espanha pelos seus artigos desabridos e corajosos,
normal em qualquer outro lugar do mundo. E com boas maneiras.
(1974) aparece nas bancas o livro “Humberto Delgado – Asesinato de un
iria ocorrer nas Caldas da Rainha, mas não seria de estranhar que fosse a
mesma fonte de Oneto – o advogado Mariano Robles Romero-Robledo
e Manuel Fraga, que foi ministro da Informação e Turismo entre 1962 e
Heróe” escrito em co-autoria entre Romero-Robledo e António Novaes.
Segundo José Oneto, terá sido Philip Carvallo quem o informou do que
Os dois homens eram amigos. Não se conhece o mês da publicação, mas
é provável que em Março de 1974 os dois já estivessem a trabalhar juntos
Quando os insurrectos se aproximaram de Lisboa e aí se depararam
com as tropas leais ao regime, não houve tiros. Foram, com a cortesia
sa. Isto significa que decorreu tudo mais suavemente do que seria
la funciona.
escreverias?
tinha muito interesse.
diquei-me ao jornalismo.
da Rainha, numa foto de 1976
GC – E também pensaste isso?
consegui entrar e estive com o director da PIDE.
quanto, ainda não conseguiu levantar a cabeça.
das esquerdas revolucionárias para a direita...?
uma guerrilha na Serra de Guadarrama, aqui ao lado.
GC – E o FLP era um partido radical, tinha acções violentas?
ta e activista de esquerda ou era, essencialmente, um jornalista?
posição é a de votante socialista crítico. Mas continuo mais apaixona-
do qual saiu um grupo trotskista. Era a época dos movimentos popu-
GC - O Pepe Oneto de então, com 29 anos, era um jovem jornalis-
do pelo jornalismo do que pela política. Eu tive a sorte de ter esta-
quatro anos e picos, faltava-me já muito pouco para acabar, mas de-
querda superou a crise. Muita gente aqui pensou, quando os socia-
listas portugueses foram para o governo, que iriam estragar tudo...
mais a crise do que a Espanha e, no entanto, com um governo de es-
da assim, bastantes sacrifícios para os portugueses. Mas sair da cri-
contribuir para sair da crise!... Ao contrário da Grécia que, por en-
Mas, surpreendentemente, começou-se a reconhecer que a fórmu-
por cima, com uma política bastante sensata, que pressupôs, ain-
GC - E porque foste entrevistar o director da PIDE quando havia
JO – Não. Mas havia um sector que sim. Houve uma cisão no FELIPE
Aliás, Portugal, que esteve muito mal, saiu da crise em melhores
lares na América Latina e esse grupo pensava que se poderia montar
porque digo que sou familiar espanhol de um oficial chamado Neto. E
JO – Não. Eu continuo a votar nos socialistas. Neste momento a minha
se quando ninguém pensava que um partido de esquerda pudesse
GC – Hoje com 76 anos fizeste ao longo da vida a típica passagem
JO - Sim. Porque estava em linha com o que acontecia na Europa.
era clandestino. E muito mais perseguido que o Partido Comunista.
JO – Era um jovem de esquerda. Como quase todos. Eu militava no FLP
(Frente de Libertação Popular) que era conhecido como FELIPE. Mas
Desse partido saíram grande parte dos dirigentes do PSOE. Muitos
na universidade, estudava Economia. Mas não acabei o curso. Estudei
condições do que a própria Espanha. Ou seja, Portugal sofreu muito
ministros do PSOE passaram pelo FELIPE. Naquela época eu estava
JO – Não sei, mas uma vez que estava preso, era uma fonte que
JO – Para mim, a situação recente de Portugal surpreendeu-me. Foi
GC - Se tivesses que escrever hoje uma reportagem igualmente
cionado). E que um partido de esquerda agora tenha conseguido o
do em sítios chave em momentos chave. Conheci praticamente toda
prospectiva sobre Portugal e Espanha como fizeste em 1974, que
a primeira entrevista ao príncipe Filipe quando ele tinha 13 anos.
que nenhum partido de esquerda conseguiu, é uma surpresa. Ainda
a classe política espanhola. Eu sou amigo do Pinto Balsemão. Eu fiz
Recordo-me que lhe ofereci um brinquedo, um avião telecomandado.
Portugal onde, devido aos seus ideais democráticos, é obrigado a exi-
José António Novaes, o correspondente do Le Monde que cobriu o 16 de Março nas Caldas
DR No debate que nós tivemos na redacção para decidir publicarmos este de Administração da Cambio16. GC – E foi isso que vocês responderam? Mais tarde entrevistei o director da PIDE na prisão e com isso fiz uma interna espanhola. ção que, embora tenha ocorrido em Portugal, tinha a ver com a política só nos traz problemas. Este tema pôs-se agora em cima da mesa um assunto de política interna espanhola. Ou seja, aquela reportagem em Portugal como se fosse um problema espanhol. Só que isso era mes- ber de onde vinham aquelas informações, que pretendíamos com aquilo, nemas do Ministério da Informação e Turismo para a revista. Queriam sa- JO – Não, nada, nada. Absolutamente. Houve reacções ao artigo e telefo- regime espanhol? GC - Ou seja, esta reportagem da Cambio16 não fo
português Joaquim Novais Teixeira, tinha sido chefe do Gabinete de
à oposição ao franquismo de forma quase irremediável. O seu pai, o
Imprensa do último Presidente da Segunda República Espanhola,
Manuel Azaña. Cercado pelos franquistas, já na fase final da Guerra
Civil, fugiu de Valencia para Barcelona e conheceu depois o exílio
em França (Marselha e Paris). A invasão alemã obriga-o a fugir para
Petróleo.
C.C.
Federação Ibérica.
Paris, onde morreu.
ta Espanha e Portugal.
tema que não se fala muito...
Portugal e Espanha no futuro?
GC – De Almaraz fala-se bastante.
tinua de costas voltadas para Portugal.
problema mais grave do que o catalão.
GC– Crês que sim? Tal como há 40 anos?
GC - Já não há marcha atrás para o diálogo?
Centrais
GC – É isso que pensas? Federação Ibérica?
GC – E sobre a Catalunha, como vês esse problema?
que seguir todos os processos abertos por rebelião, sedição.
não quer estar em Espanha, que não se considera espanhola.
Walter Haubrich viajou para Portugal com José Oneto no 16 de Março e no 25 de Abril
co jornalistas de Madrid que cobriram o 16 de Março
uma grande simpatia entre os dois países. O que lamento é o desconheci-
que foi um erro a paralisação do TGV Madrid – Lisboa. Espanha con-
tido comum já viram que, do ponto de vista económico, a indepen-
Há um grande desconhecimento em Espanha sobre Portugal. O que é sur-
Portugal, mas aqui é como se não existisse. E é um assunto que afec-
JO – É muito complicado. A Catalunha está dividida em duas: espa-
mento que aqui existe da sua cultura, da sua literatura. O único au-
JO – É o que muita gente pensa. Como as nações estão a desapare-
empresas que se foram embora da Catalunha, aumentou o desem-
nómica que não tem correspondência no resto do país e há sobre-
numa aproximação com Portugal. Há coisas que se repercutem mui-
JO – Em Portugal sim. Aqui não. Eu acompanho a imprensa por-
prego, diminuiu o consumo interno... Há uma sensação de crise eco-
JO – Esse tema está envenenado e tem uma saída muito difícil. Vão ter
GC – Em 1974 acertaste nas tuas previsões. E hoje, o que opinas para
JO – Bom, eu gostaria mais de ter Portugal do que a Catalunha (risos).
dência é inviável, é um desastre. Já se ressentiu o turismo, há 3500
tudo um medo com o que pode acontecer. Então, com tudo isso...
preendente, pois é um país que temos mesmo ao lado. Mas também há
não têm a urgência de uma Euskadi independente. E aí sim, foi um
Eu digo: oxalá se chegue a um acordo com Portugal e se faça uma
JO – Creio que menos, mas sim. Não há um mínimo de interesse
mais razoável neste momento uma Federação Ibérica? E a Catalunha
saída. O que se passa é que os independentistas sabem que se se
em alguns sectores na sequência da crise catalã. Muitos dizem que
to na economia portuguesa, desde as centrais nucleares, que é um
quanto vai durar, mas ou se muda a Constituição, ou isto não tem
se conhece muito mais da literatura portuguesa. Enfim... olha, creio
não ter o conflito da Catalunha onde há metade da população que
tor que aqui entrou e é muito admirado é José Saramago. Mas não
No País Basco, onde houve o problema do terrorismo, as pessoas
muito melhor nos iria um acordo promissor hispano-português e
cer e vamos no sentido de uma Europa muito mais aberta, não seria
nholistas e independentistas. Estamos num impasse que eu não sei
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lar-se novamente, desta vez no Brasil. Regressaria, após a guerra, a
e foi também um dos cinco oriundos de Madrid que esteve em frente
ao quartel das Caldas no dia 16 de Março de 1974. Poucos anos depois
deixaria o jornalismo e fez carreira na União Francesa das Indústrias do
Philip Carvallo (1941-2012) era correspondente da agência France Press