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o
o
rindo-se.
militares.
espanhola.
e militar da época.
foram cinco os jornalistas
militares que foram do MFA.
que Pepe Oneto concedeu à
a revista espanhola
Mas como é que numa época
Nove dias antes ocorrera o 16
Abril. Nas páginas interiores, a
É isso que conta José Oneto à
este episódio e a revolução de
cambio-16 en caldas da rainha.
envoltas em polémica) e que é
chegam às Caldas da Rainha e
título !Ay Portugal! Exclusiva:
a Franco, que tinha sido amigo
e refere os actores também do
íntimo de Humberto Delgado e
jornalista espanhol (na verdade
conseguimos apurar, apesar de
bem aproveitada pela imprensa
Já sobre quem terá sido a fonte
Cambio16 surpreende
que decorreu num clube de um
bairro burguês dos arredores de
de Março no RI5 e precisamente
desse advogado, é algo que não
só relata o que recorda do cerco
sem telemóveis nem Internet um
um mês depois dar-se-ia o 25 de
uma revolução. O jornalista falou
Adolfo Suarez. Comprei-a”, diz,
sociedade espanhola, a qual será
ensaia uma pequena abertura na
Kaúlza da Arriga. E contextualiza
informado que algo se vai passar
intentona das Caldas da Rainha e
Nesta entrevista, Pepe Oneto não
com uma capa colorida
José Oneto relata precisamente a
Gazeta das Caldas: a sua fonte foi
m 25 de Março de 1974,
Abril nos ventos de mudança que
mais extraordinários da entrevista
reportagem escrita pelo jornalista
portuguesa, em particular com os
um advogado madrileno, opositor
76 anos, vive. “Na casa onde viveu
substituído por Arias Navarro, que
assistem ao cerco do quartel) está
prevê que dentro em breve haverá
estrangeiros vindos de Madrid que
meses depois da morte de Carrero
por então se começam a sentir em
que tinha relações com a oposição
ao quartel das Caldas, como insere
Gazeta das Caldas numa entrevista
%lanco (o del´m do ditador Franco
Madrid, onde o jornalista, hoje com
na cidade? Esse é um dos aspectos
Espanha. O 16 de Março ocorre três
Ede vermelho e verde com
vários contactos que tentámos com
com as pessoas certas no momento
muito bem a situação social, política
momento: Marcelo Caetano, Spínola,
que é assassinado em circunstâncias
Centrais
rotunda da EDP
JO – Claro.
Carlos Cipriano
cc@gazetacaldas.com
acabas de entrar na Cambio16.
aproveitar muito bem essa abertura.
por Caldas das Rainha”
“Disseram-me que havia
que devíamos ir para Lisboa,
do é Carlos Arias Navarro que substitui Carrero Blanco.
mas que primeiro passássemos
movimentos militares em Portugal,
futuro sucessor de Franco, e se faz uma pequena abertura no regime quan-
GAZETA DAS CALDAS - Assinas esta reportagem precisamente quando
GC - E a julgar pelo que escreves sobre a situação portuguesa, soubeste
JOSÉ ONETO - É verdade. Eu chego à Cambio16 em finais de Fevereiro de
em que acaba de ser assassinado o Carrero Blanco, que era o presidente e
1974. Este artigo sai em 25 de Março. A Cambio16 é publicada numa época
Uma coluna militar, provavelmente proveniente de Leiria, estacionada nas imediações do RI5 no local onde é hoje a
histórias.
ra política.
paralisada.
DR 20
nessa abertura.
JO – Efectivamente.
começa neste período de 74.
não um artigo em especial?
GC – Precisamente quando entras na revista.
revista ou o jornal, fazia questão em escrever.
servador e era o único em quem o caudillo se fiava.
GC – Quando entras como director da Cambio16?
Informação e Turismo antes de a publicação sair a público.
GC - Mas já não havia censura em Espanha nessa altura?
GC - Entregavam a revista já acabada. Não um artigo de cada vez?
JO – No ano seguinte, em 1975, pouco antes da morte de Franco.
Gazeta das Caldas
16 Março, 2018
A palavra Cambio [mudança] não foi autorizada porque tinha conotações polí-
à chegada de Kissinger, que ainda por cima ficou alojado na própria embaixada.
ticas e então passou a chamar-se Cambio16 porque foram 16 os accionistas fun-
Este atentado teve circunstâncias tão raras que o homem encarregado de pro-
dia anterior à chegada de Kissinger a Madrid. E matam-no a escassos 100 me-
sem poder sair porque tinha conotações políticas. No ano anterior, com a mor-
GC – Mas foi assassinado e isso constituiu uma oportunidade para a abertu-
a quem Franco havia designado como seu sucessor. Era um homem muito con-
tros da embaixada norte-americana. Ele saía da igreja quando lhe fizeram ex-
plodir o carro. Ora, não se explica que durante oito meses tenham estado a esca-
teger Carrero Blanco, que era o ministro do Interior, Carlos Arias Navarro, as-
sequestrar a publicação. Claro que chegou a haver vários sequestros da publi-
var um túnel a 100 metros da embaixada dos Estados Unidos para lá colocarem
notícias) - Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. Dois típicos contadores de
de 32 e 32 é um símbolo maçónico... Enfim, desde o início que nos tinham sob o
as viagens dos presidentes do governo ao estrangeiro, as viagens de Juan
JO – Havia... Enfim, tínhamos que depositar dez exemplares no Ministério da
revista pudesse sair para a rua. Então a Cambio esteve muito tempo paralisada
ponto de mira. Em 20 Dezembro de 1973 morre Carrero Blanco. Era o almirante
uma bomba, quando se sabia que vinha aí o Kissinger! Nessas circunstâncias,
GC - Então, se tinham que cortar alguma coisa, cortavam a revista toda e
um contador de histórias e a prova é que os melhores romancistas em língua
dadores. Mas logo acusaram-nos de que era uma manobra porque 16 é metade
Carlos e Sofia, eu fiz 120 viagens com os reis. Ou seja, além de dirigir a
JO - A ETA fá-lo voar em circunstâncias muito raras. Ele morre precisamente no
repórter, um contador de histórias. Mais tarde fui durante 10 anos director da
te de Carrero Blanco, em Dezembro de 1973, esteve praticamente todo o ano
JO – Eu entro na Cambio16 nessa altura. Eu sempre tinha dito que queria ser
castelhana são dois jornalistas (que ainda por cima passaram por agências de
televisão de Antena 3... Fiz de tudo, mas creio que sobretudo um jornalista é
reportagens. Eu cobri a longa doença de Franco, a coroação do rei, cobri todas
JO – Sim. Nessa prévia entrega no Ministério, o governo podia actuar e podia
Cambio16, 10 anos director do El Tiempo, quatro anos director dos serviços de
cendeu a presidente do governo. Arias então inicia um discurso supostamente
cação. A Cambio16 teve uma primeira etapa e uma segunda etapa. A segunda
Nessa altura era preciso uma autorização do governo para que a marca de uma
de abertura, em que começa uma nova etapa e nós, na Cambio16, apostamos
Por isso, eu, apesar de ser director, quis sempre sair, queria escrever, queria fazer
aquela zona deveria estar muito vigiada, especialmente nos dois meses prévios
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GC -
GC -
José Oneto – o jornalista espanholl
GC -
GC -
N
-
JO – Sim.
nesse dia?
JO – Efectivamente.
Foste ao quartel?
Deixaram-te passar?
cer nas Caldas da Rainha?
gria económica e de vítimas.
DR Gazeta das Caldas 16 Março, 2018
que era o correspondente do
Portugal e nas Caldas da Rainha?
Então a tua fonte, o advogado, acertou em cheio?
As negociações entre forças do cerco e os sublevados. O brigadeiro Pedro Serra no em cima do jeep a ameaçar que bombardeava o quartel se não se rendessem.
“Não se notava que aquilo fosse uma
tudo num ambiente bastante relaxado.”
revolução ou uma rebelião. Transcorria
facto produziu-se essa intentona. Eu creio que aquilo não tinha nenhum
perto. Foram muito amáveis. Tão pouco se notava que aquilo fosse uma
mo de Humberto Delgado e estava bastante relacionado com militares.
devemos ir para Lisboa, mas antes que passemos por Caldas. Então...
Enfim, ele sabe de algo e nós vamos. Robledo tinha sido amigo ínti-
estava quase a terminar, que era uma situação que estava quase a ser con-
litares de Angola e Moçambique que sabiam que havia aí uma situa-
não fiz essa interpretação. Penso que era porque havia muita gente a re-
gressar das colónias e que via que aquilo estava perdido, que era uma san-
português, sobretudo porque tinham começado a regressar muitos mi-
se une ao PSOE). Este contacto, que era um advogado que se chama-
Portugal vai passar-se algo, que há movimentos militares e que
estar dentro do Exército. E quando muitos interpretaram que o que
Del lgado... Humberto Delgado esteve muito ligado ao partido de
Henrique Tierno Galván, o Partido Socialista Popular (que mais tarde
mos ao quartel e aquilo estava tomado pela polícia, GNR e pelo Exército.
revolução ou uma rebelião. Transcorria tudo num ambiente bastante rela-
JO – Não, não sabia nada. Nós, quando saímos, só sabíamos que nos ti-
nham dito ‘vai acontecer algo nas Caldas’. Eu fui com o Walter Haubrich,
xado. É o que eu recordo do comportamento das pessoas e das forças pú-
No 16 de Março, como soubeste que se passaria algo em
Caldas da Rainha inteirámo-nos que havia um levantamento militar.
Frankfurter Allgemeine Zeitung. Nas
Que o quartel estava cercado, que as pessoas estavam na rua. Então fo-
GC - Mas quando saíste de Madrid não sabias o que estava a aconte-
va Mariano Robles Romero-Robledo, também era desse partido. E é ele
JO – Tivemos informação de que havia um grande mal estar no Exército
JO – Nada. Não saberíamos. Aconselharam-nos a passar por Caldas e de
que nos passa uma informação dizendo para estarmos atentos porque
ção mais ou menos crítica. Havia então um íntimo amigo de Humberto
aconteceu nas Caldas, por ser uma reacção ao livro de Spínola “Portugal e
tipo de relação com o 25 de Abril, mas demonstrava que havia um grande
o Futuro”, que o general estava metido na intentona, o que seria lógico, eu
blicas. Quando dissemos que éramos jornalistas, trataram-nos bem, mas,
claro, disseram-nos que não podíamos passar, que havia um incidente, que
E se não se tivesse passado nada, o que fariam nas Caldas da Rainha
JO – Não. Não conseguimos chegar ao portão de entrada, mas estivemos
nome?
JO – Não.
do quartel?
Lisboa, em Alfama.
frentamento, de tensão.
tarde estava controlada.
co do quartel das Caldas?
estava nas tropas de cerco?
falaste com quem quiseste?
estavam dentro do quartel...
parecia totalmente controlado.
GC - Salgueiro Maia. Poderia ser?
GC - Isso é muito português, sim...
gadeiro Pedro Serrano. Confirmas?
JO – Não, não creio... Não me lembro.
GC - Na tua reportagem dizes que fa-
GC - Viste os militares detidos saírem
GC – Mas esse capitão era um dos que
JO – Não. Inteirámo-nos mais tarde
que tinha havido uns 200 detidos,
fomos a Lisboa. Dormimos mais duas
ficámos em Caldas e no dia seguinte
secretismo do Exército. Nessa noite
que estava no cerco. Recordas-te do
laste com um capitão de Santarém
noites em Lisboa, mas o ambiente já
trolada e, efectivamente, ao final da
mas isso foi dentro do esquema de
DR Centrais
não guardar as minhas notas. Deveria guardá-las, mas...
Asseguro-te que estavam a ver aquilo como se fosse um filme.
como se fosse um espectáculo, como se estivessem a ver um filme.
GC - O único que estava mais nervoso era o comandante do cerco, o bri-
GC - Quem eram os outros jornalistas estrangeiros que assistiram ao cer-
JO – Claro. Fiquei admirado. Até pensei que isto pode ser próprio do ca-
que realmente me surpreendeu é que não havia nenhum sintoma de en-
JO – Sim, sim. Os outros estavam tranquilos. Aquilo parecia uma conver-
GC - Só não conseguiste falar com os que estavam dentro. Cá fora
rácter português, que é muito pacífico. Se há uma intentona militar, um
perto da porta do quartel e falar com os que estavam a controlar a entrada.
JO – Claro. Por isso eu digo que o ambiente era muito relaxado. A mim o
sa entre colegas. E até a mim me surpreendeu que pudéssemos chegar tão
JO – Sim, mas não me lembro do nome. É que eu tenho o mau costume de
JO – Eram o Walter Haubrich, do Frankfurter Allgemeine Zeitung, o José
GC - Na tua reportagem falas de um oficial com quem te encontraste em
tentativa de revolução, o normal é que se note a tensão, não é? Mas não.
JO – Sim, recordo-me que as pessoas levavam as cadeiras para a rua.
GC - Hoje sabemos que as tropas de cerco não disparariam contra os que
JO - Sim, sim. Mas já não consigo situar-me em que momento falei com ele.
Inclusivamente as pessoas na rua contemplavam o que se estava a passar
cer algo?
nas Caldas?
que fez a cobertura do 16 de Março
dos acontecimentos?
não me lembro do nome.
Aspecto da zona de S. Cristóvão vista de dentro do quartel cercado
Humberto Delgado.”
GC - E jornalistas portugueses viste alguns?
JO – Sim, os únicos. Pelo menos que eu saiba.
JO – Haveria alguns, mas não os conhecia. Não sei...
tinha contado o Mariano Robledo e ele comenta com os outros.
“Surpreendeu-me que pudéssemos chegar tão perto da porta do quartel e falar com os que estavam a controlar a entrada”
Badajoz e que não passei por Lisboa. Fui directo a Caldas da Rainha.
“Romero Robledo tinha muito boas
informações. Ele tinha sido amigo de
muito tempo em chegar a Caldas da Rainha. Recordas-te do percurso?
boas informações. Ele tinha sido amigo de Humberto Delgado e até foi ad-
“pueblo” que não conhecias, só porque ele te disse que iria lá aconte-
vogado dele, ou da família dele quando ele morreu, porque, agora me recor-
Carlos Cipriano DR 21
GC - Tu viajaste com o Walter Huabrich. E os outros três como souberam
GC – Na altura não havia auto-estradas entre Madrid e Portugal. Tardaste
GC - Vocês cinco eram os únicos jornalistas estrangeiros que estavam
GC – E confiavas tanto em Mariano Robledo que foste, às cegas, para um
Logo, para mim, ele era uma fonte muito fiável. Ele tinha sido advogado de
do, o cadáver de Humberto Delgado foi encontrado em território espanhol.
JO – Sim, sim. Para mim o Romero Robledo era um tipo que tinha muito
Press e um correspondente da Associeted Press, um norte-americano, mas
JO – Tardei muitíssimo tempo, sim. Mas só me recordo que entrámos em
António Novaes, correspondente do Le Monde, o Philip Carvallo da France
JO – Porque eu também os avisei. Eu na altura também tinha começado a
colaborar com a Agência France Press e eu conto ao Philip Carvallo o que me