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Certa vez, decidi mandar uma carta para a casa dela, prin-  Foram situações vergonhosas e diálogos que eu nunca pensei
               cipalmente para sair um pouco dessa comunicação distante.   que teria. Posso dizer que nossa amizade foi o ponto de par-
                                                                        tida e, graças a ela, hoje já sei bastante sobre o Paquistão, e
               Queria que ela tocasse algo que eu já havia tocado, queria   tenho muita vontade de conhecê-lo.
               mostrar que nossa amizade era real, sim.
                                                                        Um dos meus principais planos é, sim, conhecer a Mashal,
               Depois de meses tentando localizar o endereço certo – mes-  mas por enquanto é muito complicado. Ainda mais porque é
               mo ela já tendo me falado antes –, finalmente escrevi e man-  difícil ela conseguir um visto até para os Estados Unidos.
               dei. Não contei nada para ela. Esperei ansiosamente por uns
               dois meses até chegar o dia em que ela me mandaria uma   Mesmo assim, nada nos impede de fazer planos e ter grande
               mensagem surtando.                                       determinação em relação a um futuro encontro.

               O risco de não chegar era enorme. Mas chegou. E ela surtou,   Uma série, uma rede social, uma língua e uma boa escolha
               como eu havia imaginado. Me mandou vídeos e fotos com o   me colocaram em contato com uma nova cultura e isso tudo
               envelope nas mãos. Foi um dos melhores momentos da minha   foi incrível. Minha amizade com a Mashal é uma das melho-
               vida.                                                    res coisas que aconteceram na minha vida e continua sendo,
                                                                        me faz crescer como pessoa e sou extremamente grata por
               Foram e são muitos momentos, na verdade. Continuamos en-
               trando no FaceTime sempre que conseguimos, desabafamos
               uma com a outra, rimos demais, compartilhamos nossas vidas
               tão diferentes e tão iguais, trocamos conhecimentos e, prin-
               cipalmente, cultura.


               Com a Mashal eu descobri não apenas a religião islâmica,
               mas também, infelizmente, a islamofobia. E foi assim que
               me interessei por essa causa. Ela, uma das minhas melhores
               amigas, não é terrorista.

               Fiquei  chocada ao saber  dos estereótipos  criados  sobre  os
               muçulmanos. Eu converso com uma muçulmana praticamen-
               te todos os dias e sei muito bem que ela não é violenta. Ela
               não é, de forma alguma, uma ameaça.


               Muitas pessoas já reagiram de formas horríveis em relação à
               minha amizade com a Mashal. E eu, sempre que algo do tipo
               acontece, respondo: “Não, eu não estou correndo perigo”.


               “Não, ela não  vai me  bombardear”.  “Não, ela não é do
               Daesh”. “Não, ela não tem pensamentos maus”.





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