Page 188 - As Viagens de Gulliver
P. 188
Não percebia o que eu queria dizer com segredos de Estado, quando não se
tratava de um inimigo ou alguma nação rival. Confinava a ciência de governar,
dentro de limites muito estritos., ao senso comum e à razão, à justiça e
clemência, à rápida determinação das causas civis e criminais, juntamente com
alguns outros tópicos evidentes que não vale a pena referir. E disse ser sua opinião
que quem quer que conseguisse fazer nascer duas espigas de trigo ou dois pés de
erva onde antes apenas nascia um era mais digno da humanidade e teria prestado
um serviço mais essencial ao seu país que toda a raça de políticos juntos.
A cultura deste povo é bastante deficiente, consistindo apenas de estudos
sobre a moralidade, história, poesia e matemática, no que devemos admitir
serem notáveis. Mas o último destes estudos inteiramente aplicado ao que é
prático e útil na vida, ao desenvolvimento da agricultura e de todas as artes
mecânicas, o que não é tido em grande conta entre nós. Quanto às ideias e
identidades abstratas, nunca consegui que as entendessem.
Nenhuma lei neste país pode exceder em palavras o número de letras do
seu alfabeto, que consiste apenas em vinte e duas. Mas muito poucas, de facto,
chegam a atingir mesmo essa extensão. São redigidas nos termos mais simples e
corriqueiros, de modo que se torna impossível a este povo dar-lhe qualquer outra
interpretação, além do que escrever um comentário sobre uma lei constitui
crime capital. Quanto à decisão das causas civis ou procedimentos judiciais
contra criminosos, os seus precedentes são tão poucos que são raras as ocasiões
em que podem fazer alarde de uma habilidade extraordinária em ambas as
situações.
Conhecem desde tempos imemoriais a arte de imprimir, tão bem como
os Chineses. Porém, as suas bibliotecas não são muito grandes; a do rei, tida
como a mais vasta, não contém mais de um milhar de volumes, instalada numa
galeria com mil e duzentos pés de comprimento e onde eu tinha liberdade para
consultar os livros que me aprouvesse. O calafate da rainha imaginara e armara
num dos aposentos de Glumdalclitch uma espécie de engenho de madeira com
vinte e cinco pés de altura e em forma de escadote, em que os degraus tinham,
cada, cinquenta pés de comprimento. Tratava-se, no fundo, de um par de
escadas amovíveis, cujos pés ficavam a uma distância de dez pés da parede, e o
livro que eu me propunha ler foi colocado ao alto, entre o escadote, e encostado à
parede. Para o ler procedia da seguinte maneira: primeiro subia até ao último
degrau e, voltando-me para o livro, começava no topo da página, deslocando-me
para a direita e para a esquerda cerca de oito ou dez passos, conforme o
comprimento das linhas, e, quando chegava às linhas que se encontravam abaixo
do nível dos meus olhos, descia mais um degrau, até chegar ao fim da página,
depois do que tornava a subir até em cima do escadote e começava uma nova