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Domingo 22
ATRIBUNA
ENTREVISTA
AnaAméliaCamarano. PesquisadoradoInstitutodePesquisaEconômicaAplicada(IPEA).
“A c h a m o s q u e a f a m í l i a é o m e l h o r
l u g a r d o m u n d o . N e m s e m p r e é ”
D IVULGAÇÃO/IPEA
DAREDAÇÃO Partedo
A sociedade brasileira idealiza “
demais a família e de menos as
instituiçõesdelongapermanên- preconceito
ciaparaidosos—nomeadequa-
doparaasresidênciasdeacolhi-
mento e convivência de idosos, podeser
também conhecidos como abri-
gos, clínicas de repouso, lar das decorrente
avós e o pejorativo asilo. Ana
AméliaCamarano,pesquisado-
ra Instituto de Pesquisa Econô- dequea
mica Aplicada (IPEA), argu-
menta que no Brasil e no resto história
do mundo ainda não há um
consenso sobre o que seja um
espaçovoltadoàmoradiacoleti- institucional
va de idosos. Historicamente,
essas instituições eram dirigi- davelhice
das à população carente. Para
ela,compós-doutoradoemenve-
lhecimento pela Nihon Univer- começou
sity, no Japão, e doutorado em
estudospopulacionaispelaLon- comouma
donSchoolofEconomics,talvez
esteja aí uma das explicações
paraesseterrenosertãocheiode caridade”
preconceitos. A estudiosa diz
queaindaécomumapercepção
dequearesidênciaemumains- cuidados, dado o aumento
tituição significa a ruptura de dademanda.
laços com familiares e amigos
dosidosos.Nesse cenário,expli- O que a senhora acha das
ca ela, acaba-se atribuindo à instituiçõesquesãochama-
residência coletiva a responsa- dasdecrechesparaidosos?
bilidade pelo abandono que, de Isso é horrível. Isso tem no-
fato, já prevalecia antes de ele me, chama centro-dia. In-
chegar até lá. Ela defende a ne- ventar esse nome creche é
cessidade de a sociedade olhar muitoruim.
com outros olhos para a ques-
tão,vencendoestigmas. Existe um modelo de resi-
dência que seja mais volta-
O Plano Mundial de Envelheci- doparaaconvivência?
mento,de2002, citaanecessi- Na verdade, elas tentam
dade de criação de um meio atenderademanda.Não há
ambiente amigável ao idoso. um modelo único. Vi uma
Comodefiniriaesseambiente? pesquisa feita em 17 países
OPlanoMundialdeEnvelheci- do mundo e não tem um
mento tem três princípios. A referencial único. Depende
criaçãodomeioambienteami- muitodasnecessidades.Vo-
gável é o terceiro deles. Tem a cê tem instituições que têm
ver com moradias adaptadas, uma parte de convivência,
em regiões não-degradadas, outroscomummaiorcuida-
com uma boa vizinhança, com dodesaúde.Obommodelo
iluminação, que não tenha bu- é o que atende a necessida-
racos na rua, que tenha segu- de do idoso. Cada um tem
rançaparaessaspessoas. uma necessidade diferente.
Na Holanda, por exemplo,
Estamos distantes desse con- há a vila que atende as pes-
ceitodecidadeamigável? soas com Alzheimer. Cada
A gente tem uma legislação, necessidade vai ter uma
tem o Estatuto do Idoso. As ofertaespecífica.
coisas estão caminhando. Na
verdade, é difícil fazer uma ge- Háoriscodeasinstituições
neralização dos idosos como serem mais um espaço de
indivíduos que têm dificulda- isolamentodesseidoso?
de de atravessar a rua, por Nãonecessariamente.Ima-
exemplo. Provavelmente, os dos a pobreza, negligência e APolíticaNacionaldoIdosoé gina ter um idoso dentro de
idosos de 100 e 90 anos, te- abandono do idoso pelas famí- casa, cuidado pela família
lias. O termo é muito carrega-
nham,osde80também.Duvi- desejáveis—osidosos,aspros-“ ouporumcuidadorcontra-
doqueosde60e70. do de preconceitos. A origem avançada,maséimplementada tado.Elevaificarnoquarto.
retirar da rua as pessoas não deformadiferenciada.Algumascidades
Temosvistonovasdefiniçõesa deleédoséculo16,naInglater- Na instituição, ele vai ficar
no quarto se for acamado.
ra,frutodacaridadecristãpara
respeitodosidosos... Elevaificarpelomenospró-
Com o envelhecimento e a me- ximo de outros. O risco de
lhoria da situação da saúde, titutas,osloucos,osórfãos.De- têmmaiscondições,outrasmenos. isolamentoemcasaémuito
essadefiniçãodequeéoindiví- pois, no século 19, as institui- maior, inclusive o risco de
duo com mais de 60 anos está fãos foram aos orfanatos, os Oqueéprogramadoasprefeiturasfazem” violência do cuidador, que
ções ficaram separadas. Os ór-
velha.Aquelesquetêm70anos também fica muito isolado.
hoje são como quem tinha 50 loucos aos manicômios e os ve- Em casa, ele não tem quase
há 20 anos. Tem até um filme lhos, aos asilos. Ficou esse pre- ninguém para conversar.
falando que os 50 são os novos conceito,nofimdascontas. nome nunca pegou, porque A gente vê o surgimento de As privadas constituem 28,2% Na instituição, ele conversa
30.Édifícilgeneralizarisso. também não é bom. Na verda- repúblicas para idosos. É uma dototal.Apenas6,6%dasinsti- com outros idosos, tem
Aindasefalaasilo? de, é preciso trabalhar melhor tentativademudaraimagem? tuições brasileiras são públicas umasocializaçãomaior.
Asresidênciasparapessoasda A Sociedade Brasileira de Ge- esseconceitoderesidênciacole- Santos é pioneira nessa histó- ou mistas, predominando as
terceira idade recebem muita riatria, em 1985, mudou essa tiva, que é o lugar onde as pes- ria de repúblicas. É e não é. As municipais. A maioria é filan- Generaliza-setudo,então?
avaliaçãonegativa.Essaéuma denominação para instituição soasmoramjuntas. repúblicas são uma modalida- trópica.Mastemcrescidoonú- Achamos que a família é o
coisadanossasociedade? delongapermanênciaparaido- de. Quem pode ficar numa re- merodecasasprivadas. melhor lugar do mundo.
NoBrasil,osasilossãoassocia- sos (ilpis). Acontece que esse Masaimagemnãoéessa... pública são idosos mais inde- Asilos, casas de repouso, clíni- Nem sempre é. Não neces-
“ Isolamentodoidoso carregada de preconceito. A uma alternativa para pessoas A nomenclatura toda é muito tre gêneros, entre gerações.
Aqui, a busca por ilpis é consi-
sariamente. A família é lu-
pendentes. A república tam-
cas.Étudoamesmacoisa?
gardedisputadepoder,en-
derada uma atitude polêmica,
bém não é uma panaceia. É
independentes.
valorizaçãonegativaémaisfor-
Viver com os filhos não é
ruim. Casa de repouso? Você
não vai para lá para repousar,
te quando a decisão pela inter-
garantia de respeito, cuida-
eocultaçãoda
As formas de residência para
do adequado ou ausência
nação é tomada pela família.
não é? Lar das avós, clínicas
idosos ainda são centradas
de maus-tratos. A gente
Tudoissoéfrutodepreconcei-
geriátricas, os nomes são os
mortenãosãoexclusivos
muito nos modelos beneficen-
to. A política (nacional do ido-
maisvariadospossíveis.Nasúl-
também idealiza a institui-
tes,nosabrigos?
so) reforça isso, na medida em
ção,comoopiordomundo.
timas décadas, houve um cres-
dehoje.Todassociedades
tro. Tem instituição ruim e
famíliacuidardoidoso.Oasilo
ções privadas com fins lucrati-
Ipea, a grande maioria das ins-
vos. Isso pode refletir uma di-
tituições brasileiras é filantró-
acabou virando sinônimo de
boa. É uma modalidade de
enfrentamofimdavida” que fala que é obrigação da De acordo com a Pesquisa cimentoacentuadodasinstitui- Não é nem um, nem o ou-
serviço. É igual escola, tem
pica, 65,2%, incluindo neste
pobreza e abandono para os
minuição de preconceitos em
aboaetemaruim.
conjunto, as religiosas e leigas.
relação a essa modalidade de
brasileiros.