Page 47 - Demolidor - O homem sem medo - Crilley, Paul_Neat
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– Você treinará aqui todas as horas que tiver livre. E, mesmo assim, eu não

                sei  se  vai  adiantar.  Você  é  indisciplinado.  Autoindulgente.  Emocional.  E
                essas  são  três  qualidades  que  eu  realmente  odeio  nas  pessoas.  Mas  vou
                arriscar com você, Matt.

                  –  Por  quê?  –  pergunta  Matt  agressivamente.  –  Por  que  vai  arriscar
                comigo?

                  – Porque não tenho escolha. Preciso de toda a ajuda que eu conseguir.

                                                           • • • •

                  Semanas se passam e Stick ainda não conta a Matt o motivo de precisar
                dele. Eventualmente, ele para de perguntar. Não parece mais tão importante.
                  Ele  sabe  que  parece  loucura,  mas  é  verdade.  O  tempo  que  passam  no

                porão é inteiramente dedicado a isso. Ao treinamento.
                  – Não! – gritou Stick. – Você já me contou que consegue sentir o vento.

                Agora tem que sentir o ar.
                  – Não consigo sentir o ar! – Matt está suando. Frustrado. É a quinta vez

                que ele corre e bate de cara em um dos manequins de luta de Stick.
                  – Sempre existe ar, garoto. Como você respira?

                  – Quero dizer que ele não está se movendo!
                  – Ele não precisa se mover. Apenas pare. Se acalme.
                  Matt  faz  como  foi  instruído:  ele  acalma  a  respiração,  respira  fundo  e

                devagar. Permite que seus sentidos entrem no quarto dentro de sua cabeça.
                Nem todos eles – só o suficiente para sentir algo… a mais.

                  A  escuridão  que  o  envolve  se  desloca  lentamente,  pulsando.  Um  pouco
                dela fica mais pesada, uma solidez negra que parece ganhar forma. Outras
                partes  se  tornam  mais  leves.  Estranho,  desenhos  cinza-carvão  se  formam

                atrás de seus olhos.
                  – Espere – Stick diz suavemente. – Foque no ar. Sinta as correntes tocando

                tudo que há na sala.
                  Matt respira ainda mais devagar. Os desenhos em cinza e preto giram e se

                deformam. Ele consegue sentir o movimento sobre eles, um toque invisível,
                quase como ver no verão ondas de calor sobre o asfalto. Os cinzas e pretos
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