Page 14 - Os Manuscritos do Mar Morto
P. 14

13



                                                   INTRODUÇÃO



                                                                                                   1
                         Desde a descoberta dos comumente chamados Manuscritos do Mar Morto,  no
                  deserto da Judéia,  muito  se tem  cogitado acerca  das possíveis  influências  literárias e

                  estruturais legadas aos primeiros escritos cristãos, passivos de uma literatura e práticas
                  anteriores  às  descritas  nos  livros  do  NT.  Por  muito  tempo,  pesquisadores  bíblicos

                  acreditaram  que  muitos  aspectos  da  teologia  e  eclesiologia  encontrados  nos  livros
                  canônicos  do  NT  eram  “puramente”  e/ou  “originalmente”  cristãos.  No  entanto,  se

                  considerarmos  os  MQ  com  o  devido  cuidado,  compreenderemos  os  motivos  dessa

                  preposição não mais ser aceita em sua plenitude atualmente.
                         Examinando  as  interpretações  já  consideradas  ao  longo  dos  60  anos  da

                  descoberta destes manuscritos, percebemos que muitas propostas para explicar a origem
                  do  cristianismo  com  base  nos  MQ  são  falhas.  Com  a  liberação  dos  manuscritos  à

                  comunidade acadêmica internacional e o término da publicação dos manuscritos pouco
                              2
                  tempo atrás,  o ritmo das publicações se acelerou perceptivelmente e várias pesquisas
                                                         3
                  inovadoras estão só agora vindo à tona.  Uma ampla revisão bibliográfica vem sendo
                  feita  acerca  das  primeiras  interpretações  dos  manuscritos,  já  que  muito  do  que  foi
                  escrito sobre Qumran está totalmente ultrapassado. Conceitos outrora tidos como certos,

                  principalmente sobre o nascimento do cristianismo, são atualmente obsoletos frente às
                  novas interpretações. Outro sério problema é que muito do que foi (ou é) trazido à tona

                  entre as possíveis relações entre a comunidade de Qumran e o cristianismo nascente é

                  comprometido por uma visão tendenciosa por parte de alguns escritores, ora negando
                  qualquer influência, ora atribuindo todas as bases da nascente da religião cristã como

                  fruto de  empréstimos, como  se o  cristianismo  nascente não tivesse  nada  de peculiar.
                  Com  certeza,  uma  análise  mais  acurada  desse  material  pode  favorecer  uma  melhor

                  compreensão  do  ambiente  palestino  dos  séculos  II  a.C.  até  meados  do  I  d.C.  e  do

                  alcance e limites de sua interação com o cristianismo.

                  1
                    Manuscritos do Mar Morto ou Manuscritos do Deserto da Judéia (ou Judá) é o nome genérico atribuído
                  a uma ampla gama de textos descobertos na região do mar Morto. São oriundos de sítios diferentes e de
                  períodos  diferentes.  Doravante,  utilizarei  a  expressão  Manuscritos  de  Qumran  (MQ)  para  designar  os
                  descobertos em Qumran e para dar maior particularização aos textos, uma vez que são apenas estes os
                  usados neste trabalho. Dentre todas as coleções de textos encontradas na região do mar Morto, a mais
                  abundante e significativa provêm de Qumran.
                  2
                    Sobre o término das traduções e liberação a acadêmicos do mundo todo, cf. p. 27.
                  3
                     O  Brasil  também  começa  a  dar  suas  contribuições.  Já  existem  dissertações  e  teses  concluídas  e  em
                  andamento,  artigos  acadêmicos  publicados  e  grupos  de  pesquisa.  No  ano  de  2004,  o  Brasil  chegou
                  inclusive a hospedar  uma exposição de manuscritos do  mar Morto,  fato que mobilizou acadêmicos da
                  área e despertou maior interesse no público leigo.
   9   10   11   12   13   14   15   16   17   18   19