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de toda a região para honrar os falecidos, lembrando suas histórias ao redor da galinha com
        polenta da tia Nair, antecipada por voltas e mais voltas de chimarrão. Para mim era ainda

        melhor, porque ela me chamava de canto e me carregava para o bolicho na parte da frente
        da casa, onde penetrávamos na escuridão ainda desabitada dos bêbados que chegariam
        mais tarde, porque também eles tinham mortos para chorar ou amaldiçoar. Naquela caverna

        de Ali Babá, onde o silêncio cheirava a couro, salame e fumo, tia Nair enfiava suas duas mãos
        bordadas pelos calos de uma vida de roça e colhia do baleiro doces de mil e uma noites.

          Quando  agora  vou  chegando  pela  estradinha  poeirenta  do  Barreiro,  avisto  tia  Nair
        correndo para nos dar as boas-vindas, com seu sorriso pendurado pelas orelhas, e sei que
        nunca mais serei tão bem recebida por ninguém. Tia Nair já não está mais lá, é apenas na

        minha memória que ela vive, mas mesmo assim a criança que mora em mim também como
        memória enche as mãos de balas que só existiam lá. Depois sigo meu caminho para deixar

        uma palma na porta de sua casa no cemitério.
          E de lá começa nossa visita, eu, meu pai e minha mãe, minha mãe sempre apressada, meu
        pai querendo se deixar ficar para fazer suas homenagens. E eu tentando ajeitar as flores nos

        vasos  com  meu  desajeito,  porque  sempre  fui  uma  destra  com  duas  mãos  esquerdas  e
        nenhuma delas se entende com a outra. Está lá Pietro Brum, o meu trisavô italiano (meu pai

        me disse que o pai do meu bisavô não é tataravô ou tetravô, mas trisavô, que todo mundo
        erra e seria bom que eu acertasse). Pois o tal trisavô veio da Itália, fugindo com o filho
        Antônio, que aponta sua cara do além-túmulo com o mesmo ar topetudo que deveria ter

        quando embarcou clandestino no navio para o Brasil, escapando de mais uma daquelas
        guerras em que só os pobres morriam. Mas basta um olhar para minha bisavó Carlota, com

        sua mirada de faca, para eu ter certeza de que ela o fazia andar no miúdo.
          Estacionamos nossos pés diante do túmulo de meus avós paternos, José e Victoria, minha
        avó que nunca deixou ninguém sair do seu portão sem uma cuca, um pão, um queijo, um

        salame ou um presunto, e por isso recebia mais visitas do que sua azáfama diária permitiria.
        E que, nas noites de tempestade, carregava todos para o porão, por causa da tia Maria
        Henriqueta, que morreu de raio quando, ao dormir entre duas de suas irmãs, foi a única a se

        encostar na cama de ferro. Ao lado dela, no túmulo vizinho, brinca tia Lídia, que mudou de
        mundo ainda na infância depois que uma vizinha deu a ela uma dose de querosene para

        curar uma dor de barriga.
          E mais uma vez xingamos um tio-avô que teve o péssimo gosto de tomar veneno justo no
        dia  do  casamento  de  minha  tia  Iolanda,  sem  o  menor  respeito  pela  alegria  alheia.

        Espalhamos mais umas flores aqui e ali, como para a minha tia Cristina, que emprestou seu
        nome para botar no meio do meu. Acabei banindo-o assim que pude, porque ela, quando
        ainda era uma alma encarnada, já era lembrada como uma mulher tão boa que a tudo

        suportava, coisa que não me caía muito bem. Mas eu adorava a tia Cristina que me esperava
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