Page 166 - C:\Users\Leal Promoções\Desktop\books\robertjoin@gmail.com\thzb\mzoq
P. 166
com doces de leite e cuidou das duas galinhas que eu criava como filhas e cuja educação e
responsabilidade repassei a ela depois que não couberam mais na minha casa de cidade. Tia
Cristina zelou pelas minhas filhas de penas até a morte natural de uma e depois de outra, e
mesmo quando a branca engoliu a sua corrente de ouro e todo o Barreiro insistiu que aquela
franga desaforada estaria melhor na panela. Minha boa tia Cristina jamais magoou ninguém
além de si mesma.
Para jamais esquecer que a vida é tecida com sentimentos contraditórios e gentes mais
ainda, é diante do túmulo da minha tia Cristina que ofereço um buquê de comigo-ninguém-
pode para minha tia A., esta pelos lados da minha mãe. A distância, porque essa tia se
encontra em um cemitério da capital, a quase 400 quilômetros dali. Apesar do nome de
querubim, que aqui estou proibida de mencionar por decreto familiar, enquanto viveu tia A.
urinou no túmulo do falecido que a havia traído com tanta assiduidade. Por causa desse
péssimo hábito, meu bem-posto tio-avô deve ter negligenciado a parte da anatomia que tia
A. passou a obrigá-lo a enxergar em seu duvidoso descanso eterno.
Minha avó materna não visito em túmulo, porque a sinto tão presente que é quase como
se estivesse ainda por aqui. Tenho sua máquina de costura bem ao lado da minha
escrivaninha Xerife e, enquanto escrevo, ela alinhava capas de chuva feitas de saquinhos de
leite, porque sempre achou as embalagens industrializadas uma maravilha. Muito antes de
qualquer conversa ecológica, vó Teresinha afirmava que algo tão bonito não podia ser
descartado como lixo e tratava de transformar logo em alguma utilidade. Sempre proseamos
enquanto escrevo e, quando estou triste além da conta, ela me bota a cabeça em seu colo
com cheiro de bolacha Maria e me conta uma história de Pedro Malasartes. Vó Teresinha,
que viveu como uma santa, tinha outra por dentro. E ainda hoje, nas manhãs desmaiadas
dos domingos, nós duas lamentamos que esta outra não tenha saído para botar ordem no
seu mundo enquanto o tempo ainda era vivo.
Pausando para visitas aqui e ali, meu pai, minha mãe e eu sabemos o que nos espera logo
adiante. Meu primo Gilberto, o Beto, e a Mana, sua mulher, nos aguardam logo na descida
da lomba com o melhor churrasco da região e cucas recheadas que desmancham na boca.
Beto é filho da tia Nair e, na companhia querida da Mana, mantém a tradição de acolher os
parentes que vêm de longe e de perto para honrar os mortos. Na ocasião, meu primo
também recolhe as ofertas para a festa da padroeira, quando eu divido com meu pai e meu
irmão mais velho a doação de uma vaca. Com uma pontada de culpa porque sei que a
malhada vai virar churrasco, mas não com culpa suficiente para me converter em
vegetariana.
Mas o percurso dos finados ainda não acabou. E, para mim, a visita mais importante é a
última, ao alcançar uma mulher que não conheci, mas que permitiu que eu tudo conhecesse.
Ela se chama Luzia de Figueiredo Neves e nasceu no ventre de um romance. Seu pai, Sabino