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Pedro e João: a
história de dois
meninos gays e uma
infância devastada
Da infância, somos todos sobreviventes. Alguns mais do que outros. Esta é a história de um
homem em busca de compreender a si mesmo. E de tentar, como adulto, ser diferente do
menino, pelo poder da narrativa. Esta história é contada aqui porque foi a nossa ignorância
— a minha e também a sua — que destroçou a vida dessas duas crianças. E tem destroçado
— às vezes em brutal literalidade, com tiros e pancadas — a vida de muitos — demais.
Antes, a história de como nos conhecemos. Ele me enviou o primeiro e-mail no início de
dezembro. Um amigo dele acabara de ser assassinado por homofóbicos, e ele tinha se
deparado com uma campanha na internet que arregimentava pessoas a se unirem para
executar homossexuais. Ele tinha medo de sair de casa. Estava assustado. E também com
raiva. Pedia que eu denunciasse a campanha nesta coluna.
Respondi que escrever sobre esse tipo de manifestação era amplificar uma voz de ódio.
Afinal, o sonho de quem divulga algo na internet é ser acessado, replicado, comentado,
seguido, citado. Em vez disso, propus a ele que me contasse a sua história para — talvez —
publicá-la aqui. Contar uma história que nos aproxime é a melhor resposta que podemos dar
a quem usa as palavras para aumentar as distâncias.
Desde então, iniciamos uma correspondência. Chequei a sua identidade, mas respeitei sua
decisão de ocultar seu nome. Nessa narrativa real, vamos chamá-lo de Pedro. Filho único de
uma família de classe média do interior de Minas, Pedro tem 28 anos, é engenheiro
ambiental e hoje vive sozinho em Goiânia. Um brasileiro como tantos outros, que trabalha
duro e paga seus impostos. Todo ano ele participa da parada gay, mas não é o que se poderia