Page 179 - C:\Users\Leal Promoções\Desktop\books\robertjoin@gmail.com\thzb\mzoq
P. 179

Pedro e João: a






        história de dois







        meninos gays e uma






        infância devastada














        Da infância, somos todos sobreviventes. Alguns mais do que outros. Esta é a história de um

        homem em busca de compreender a si mesmo. E de tentar, como adulto, ser diferente do
        menino, pelo poder da narrativa. Esta história é contada aqui porque foi a nossa ignorância

        — a minha e também a sua — que destroçou a vida dessas duas crianças. E tem destroçado
        — às vezes em brutal literalidade, com tiros e pancadas — a vida de muitos — demais.
          Antes, a história de como nos conhecemos. Ele me enviou o primeiro e-mail no início de

        dezembro.  Um  amigo  dele  acabara  de  ser  assassinado  por  homofóbicos,  e  ele  tinha  se
        deparado com uma campanha na internet que arregimentava pessoas a se unirem para
        executar homossexuais. Ele tinha medo de sair de casa. Estava assustado. E também com

        raiva. Pedia que eu denunciasse a campanha nesta coluna.
          Respondi que escrever sobre esse tipo de manifestação era amplificar uma voz de ódio.

        Afinal, o sonho de quem divulga algo na internet é ser acessado, replicado, comentado,
        seguido, citado. Em vez disso, propus a ele que me contasse a sua história para — talvez —
        publicá-la aqui. Contar uma história que nos aproxime é a melhor resposta que podemos dar

        a quem usa as palavras para aumentar as distâncias.
          Desde então, iniciamos uma correspondência. Chequei a sua identidade, mas respeitei sua

        decisão de ocultar seu nome. Nessa narrativa real, vamos chamá-lo de Pedro. Filho único de
        uma  família  de  classe  média  do  interior  de  Minas,  Pedro  tem  28  anos,  é  engenheiro
        ambiental e hoje vive sozinho em Goiânia. Um brasileiro como tantos outros, que trabalha

        duro e paga seus impostos. Todo ano ele participa da parada gay, mas não é o que se poderia
   174   175   176   177   178   179   180   181   182   183   184