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errado frente à sexualidade de João. Não sei bem o que seria depressão, mas, se por algum
momento da minha vida passei por isso, foi justamente nesse ápice de consciência.
Lembro que chegava a me mutilar. Tinha raiva de mim, de minha imagem. Tinha nojo do
meu órgão sexual e de qualquer ereção eventual. Eu evitava levantar da cama, tinha muito
sono, não queria conviver com ninguém. Lia bastante, muito, mas muito mesmo... Nessa
época li tudo de Dostoiévski, Tolstói. Um personagem em especial me acompanhou pela vida
inteira: Kirilov, do livro Os Demônios, de Dostoiévski. Ele dizia algo como: ‘Deus é o medo de
depois da morte’.
Foi nessa época que minha mãe percebeu que tinha algo de errado comigo e me mandou
para um psicólogo. Mas eu não tive nenhuma afinidade com ele. Não podia confiar em
alguém que minha mãe pagava. Ali, no consultório, eu ajudei a moldar ainda mais meu
personagem, pois tinha que tentar me desvencilhar de alguém que, teoricamente, estaria
preparado para fazer uma leitura das pessoas. Lembro vagamente de que, na primeira
consulta, ele afirmou: ‘Sua mãe me disse que você tem andado triste e tem ficado muito
tempo trancado no quarto. E aí, o que está acontecendo?’. Senti-me pressionado. Depois
dessa experiência, nunca mais voltei a psicólogos.
Aos 15 anos, eu estava tão solitário que pensei em parar de estudar ou mudar de colégio.
Se as pessoas que conviviam comigo soubessem de alguma coisa, meu mundo poderia
acabar. Não frequentei nenhuma das festinhas de 15 anos de minhas amigas, não fui à festa
alguma, não fui adolescente. Nesse período de reclusão, eu passava o fim de semana todo
trancado no meu quarto. Por um lado foi bom: estudei muito e não tive nenhuma dificuldade
para passar no vestibular. Acho que é essa reclusão, causada pela dificuldade de
autoaceitação, que faz com que muitos dos gays sejam bem-sucedidos nos estudos. É como
se perdêssemos um período da vida social e buscássemos nos livros um afago.”
Pedro tenta fugir — mas não há fuga de si mesmo
“Passei em três universidades federais. A minha escolha foi pela UFOP (Universidade Federal
de Ouro Preto), não porque era meu curso predileto, mas sim porque Ouro Preto era a cidade
mais distante da casa de meus pais. Com 17 anos mudei-me para Ouro Preto, pensando que
tudo seria diferente. Não foi. Cursei Engenharia numa cidade que priva pelo tradicionalismo,
convivendo em repúblicas com cerca de 15 homens. Todos, ao menos aos olhos da
comunidade universitária, heterossexuais.
Bem no início do curso, eu presenciei uma cena que me trancou ainda mais dentro do
armário: um dos moradores de uma república vizinha à minha, líder estudantil, influente no
meio acadêmico, foi flagrado contando à empregada da casa que tinha um caso com outro
estudante. O apelido dele tornou-se sinônimo de gay no ambiente universitário. Os outros