Page 181 - C:\Users\Leal Promoções\Desktop\books\robertjoin@gmail.com\thzb\mzoq
P. 181
mesma turma. Desde o início, tinha um colega que conseguia disfarçar menos sua
homossexualidade e, para continuar pertencendo ao grupo, eu participava de ataques de
bullying homofóbico. Estes eram os momentos nos quais eu me sentia pior.
João sempre estudou na mesma turma em que eu. Éramos muito amigos na infância,
nossas mães eram amigas e ambos éramos filhos únicos. Ele frequentou a minha casa e eu a
dele, brincamos muito na infância, éramos os melhores amigos. Apesar de ser um ano mais
velho do que eu, João não aparentava, porque sempre foi muito sensível e delicado. O fator
‘não jogar bola’ influencia muito o que as crianças pensam quanto à sexualidade de outra. E
João não jogava.
É engraçado. Nunca trocamos uma palavra sequer em relação ao sexo. Ao menos, não que
eu me lembre. Jogávamos muito videogame juntos, e geralmente ele passava pela manhã
em minha casa para irmos ao colégio. Não sei bem explicar como, mas nossa relação e
encontros foram tornando-se esparsos, até que nos tornamos meros colegas de sala. Ele
passou a ser um garoto solitário, menos risonho. Aproximou-se mais das garotas e adquiriu
‘trejeitos’, que talvez sempre tenha tido, mas que somente com o amadurecimento e a
consciência do mundo eu e os outros garotos começamos a perceber.
Eu tinha 12 ou 13 anos nessa época. Acho que, por pertencer a uma família que preserva
bastante as tradições mineiras, na qual era comum escutar comentários homofóbicos e até
mesmo racistas, eu tinha o preconceito internalizado de que a homossexualidade era algo
errado. E é muito estranho ser ‘errado’. Eu não tinha com quem conversar, eu não tinha com
quem dividir meus desejos. E acho que foi a fase na qual eu tive mais medo na minha vida.
Era um medo de tudo, um medo de mim.
Adquiri repulsa por alguém que eu imaginava ser a pessoa que mais se assemelhava a mim.
Julgava-o sujo. Era como se o distanciamento que criei com ele disfarçasse a minha sujeira.
Não sei bem ao certo, mas em virtude de suas maneiras mais delicadas, nós, os meninos,
simplesmente deixamos de conviver com ele. Não sei como surgiram os primeiros episódios
de bullying. Mas, aos poucos, ele começou a ser motivo de chacota na sala e, em pouco
tempo, de todo o colégio.
Crianças e adolescentes têm uma maldade que eu não entendo. Todos os dias escrevíamos
no quadro seu apelido: ‘João viadinho’. A situação de bullying era clara. Ele sofria muito, era
perceptível. Quando cruzávamos com ele, ríamos e imitávamos trejeitos femininos. Os
meninos da sala não o tocavam, pois, caso isso ocorresse, pegariam ‘viadice’. Imagino o
quanto isso foi dolorido para ele.
Logo, ele começou a permanecer todo o recreio dentro da sala de aula. E as agressões
passaram do campo das palavras para o físico. Em suas tentativas de revide, ele levava tapas,
socos e pontapés. Eu não cheguei a fazer isso. Mas, os outros garotos, sim. Quando ele
passava pelo corredor, próximo ao grupinho dos ‘machos’, além de um ‘E aí, viadinho?’, ele