Page 186 - C:\Users\Leal Promoções\Desktop\books\robertjoin@gmail.com\thzb\mzoq
P. 186

mundo. Abusei ao extremo do uso de cocaína, associada ao uso de ansiolítico. E o que me
        deixava pior era a sensação: ‘Tinha sido muito bom’. Chorei muito.

          Não sei ao certo, mas acho que por dois ou três meses retornei à minha reclusão. Passava
        os finais de semana em casa, reprimindo meus desejos. Mas nada pode ser reprimido para
        sempre.

          Depois de uma festinha de aniversário de uma colega de trabalho, num local próximo à
        casa noturna que já tinha frequentado, eu criei coragem e, após contornar diversas vezes o

        quarteirão, entrei. Receoso, troquei olhares com o bartender. Encarei, flertei, fui retribuído.
        O tempo demorou a passar e já era quase dia quando ele pôde sair do bar e vir ao meu
        encontro. Dessa vez, fui eu que tomei a iniciativa e o beijei. Dessa vez, eu não fugi e aquela

        meia hora em que ficamos juntos foi a primeira vez que um cara de 23 anos estava aceitando
        a si mesmo. Era a primeira vez que eu podia dizer que estava realizado, feliz.

          Depois  daquela  noite,  passamos  a  nos  encontrar  em  todos  os  finais  de  semana.  Mas,
        sozinho em casa, depois dos beijos, eu ainda me sentia angustiado e estranho. Tive a sorte,
        porém, de ter encontrado uma pessoa fantástica, que respeitava as minhas restrições. E elas

        eram  muitas.  A  primeira  vez  em  que  permiti  algo  mais  íntimo  foi  após  dois  meses  de
        encontros, fim de semana após fim de semana. Meu namorado só começou a frequentar a

        minha casa após três meses de relacionamento. Ele compreendia, mas não deixava de ficar
        chateado com tamanho recalque. Cobrava sexo, mas eu tinha muito medo. Estávamos juntos
        havia cinco meses quando, pela primeira vez, ele foi dormir comigo. E foi a primeira vez que

        tivemos uma relação sexual. Era também a primeira relação sexual da minha vida.”


        Pedro descobre que não o perdoam por ser
        “Mesmo trabalhando para um órgão que, a princípio, deveria privar pelo cumprimento das
        leis,  eu  já  sofri  homofobia.  Sinto  um  certo  afastamento  por  parte  de  algumas  pessoas

        simplesmente  pelo  fato  de  eu  não  querer  me  esconder  mais.  Minhas  opiniões  e  minha
        qualidade técnica são diminuídas por causa da minha orientação sexual. Por quê? Ser gay

        me tornou menos competente?
          Sinto raiva de uma sociedade que tem medo de ver beijo gay na novela das oito, mas que
        se  delicia  assistindo  às  piores  atrocidades  nos  noticiários  sensacionalistas.  Fico  me

        perguntando: por que eu incomodo tanto? Por que gostar de alguém traz tanta violência?
        De onde vem esse ódio?

          É muito difícil compreender por que a comunidade evangélica, por exemplo, é capaz de
        perdoar  a  assassinos  ou  bandidos  que  se  converteram  à  religião  e  não  aceitam  que  eu
        caminhe de mãos dadas com meu namorado pela rua. Qual é o crime de se caminhar de

        mãos dadas pela rua?
   181   182   183   184   185   186   187   188   189   190   191