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mundo. Abusei ao extremo do uso de cocaína, associada ao uso de ansiolítico. E o que me
deixava pior era a sensação: ‘Tinha sido muito bom’. Chorei muito.
Não sei ao certo, mas acho que por dois ou três meses retornei à minha reclusão. Passava
os finais de semana em casa, reprimindo meus desejos. Mas nada pode ser reprimido para
sempre.
Depois de uma festinha de aniversário de uma colega de trabalho, num local próximo à
casa noturna que já tinha frequentado, eu criei coragem e, após contornar diversas vezes o
quarteirão, entrei. Receoso, troquei olhares com o bartender. Encarei, flertei, fui retribuído.
O tempo demorou a passar e já era quase dia quando ele pôde sair do bar e vir ao meu
encontro. Dessa vez, fui eu que tomei a iniciativa e o beijei. Dessa vez, eu não fugi e aquela
meia hora em que ficamos juntos foi a primeira vez que um cara de 23 anos estava aceitando
a si mesmo. Era a primeira vez que eu podia dizer que estava realizado, feliz.
Depois daquela noite, passamos a nos encontrar em todos os finais de semana. Mas,
sozinho em casa, depois dos beijos, eu ainda me sentia angustiado e estranho. Tive a sorte,
porém, de ter encontrado uma pessoa fantástica, que respeitava as minhas restrições. E elas
eram muitas. A primeira vez em que permiti algo mais íntimo foi após dois meses de
encontros, fim de semana após fim de semana. Meu namorado só começou a frequentar a
minha casa após três meses de relacionamento. Ele compreendia, mas não deixava de ficar
chateado com tamanho recalque. Cobrava sexo, mas eu tinha muito medo. Estávamos juntos
havia cinco meses quando, pela primeira vez, ele foi dormir comigo. E foi a primeira vez que
tivemos uma relação sexual. Era também a primeira relação sexual da minha vida.”
Pedro descobre que não o perdoam por ser
“Mesmo trabalhando para um órgão que, a princípio, deveria privar pelo cumprimento das
leis, eu já sofri homofobia. Sinto um certo afastamento por parte de algumas pessoas
simplesmente pelo fato de eu não querer me esconder mais. Minhas opiniões e minha
qualidade técnica são diminuídas por causa da minha orientação sexual. Por quê? Ser gay
me tornou menos competente?
Sinto raiva de uma sociedade que tem medo de ver beijo gay na novela das oito, mas que
se delicia assistindo às piores atrocidades nos noticiários sensacionalistas. Fico me
perguntando: por que eu incomodo tanto? Por que gostar de alguém traz tanta violência?
De onde vem esse ódio?
É muito difícil compreender por que a comunidade evangélica, por exemplo, é capaz de
perdoar a assassinos ou bandidos que se converteram à religião e não aceitam que eu
caminhe de mãos dadas com meu namorado pela rua. Qual é o crime de se caminhar de
mãos dadas pela rua?