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moradores da casa nem pestanejaram: jogaram todas as coisas dele para fora da casa. Nem
se deram ao trabalho de ouvir um cara que havia morado com eles nos últimos quatro anos.
Foi muito estranho ver as coisas dele jogadas no chão da famosa Rua Direita.
Eu era um adolescente exemplar. Nunca tinha bebido, nunca tinha usado drogas. Era
virgem, nunca beijara ninguém. Nessa época, comecei a viver numa história inventada. Para
me inserir num grupo, eu comecei a usar um disfarce. O ‘porra-louca’ heterossexual. Beijava
meninas, mas tinha muito medo de que alguma delas quisesse algo mais. Comecei a beber
muito e a ser usuário de maconha e, mais tarde, de cocaína. Era uma fuga, era um jeito de
ser querido por um grupo, era uma forma de estar inserido. Era ser comum. E assim foi
durante cinco anos. Anos lentos, intermináveis.
Uma colega de sala foi a primeira pessoa que soube de minha homossexualidade, já no
final do curso. Foi uma explosão. Era como se eu estivesse tirando o maior peso do mundo
de minhas costas. Só consegui dizer: ‘Sou gay’. E comecei a chorar sem parar. Era um misto
de medo da reação e de alívio indescritível. Pela primeira vez eu tirava a minha máscara para
um outro ser humano.
Formei-me na universidade em 2006, com 22 para 23 anos. Era virgem, escolado no
submundo do álcool e das drogas. Antes de me mudar de Ouro Preto, reuni todos os 15
rapazes que moravam comigo na república. Eu não queria sair daquela casa tendo omitido
quem eu realmente era. Nessa reunião, completamente drogado, eu vomitei, com certa
raiva de mim e de tudo, que eu era gay e que aquilo era o mínimo que eu podia fazer por
pessoas com as quais eu convivi.
Logo após um silêncio, nada convencional, eu presenciei as mais distintas reações. De ódio
a apoio. Há pessoas com as quais nunca mais troquei palavra. Mas também recebi um
carinho que eu não imaginava que fosse possível. Descobri que, apesar dos revezes, eu
encontraria pessoas que não encaravam aquilo como aberração. Acho que aquele momento
foi fundamental para que eu pudesse encarar a vida. Eu nunca tinha encostado em um
homem, eu nunca tinha tido uma relação verdadeira. Na verdade, acho que toda a minha
felicidade era falsa.”
Pedro tira a máscara — arranca-se de si
“Passei em um concurso público estadual e fui trabalhar em Uberlândia. A independência
financeira é muito importante para um homossexual, significa o primeiro momento em que
não é preciso dar satisfação a ninguém sobre o que você sente. Fui para Uberlândia com a
pretensão de viver.