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estaremos com você. Você sabe que não podemos adiar o que queremos, ainda mais que já
        estamos em contagem regressiva. Espero que leia umas várias vezes essa recomendação. Se

        não quiser comentar sobre ela falando, me escreva e me conte um pouco de você. Beijos. Te
        amamos muito. Mãe e pai’.
          Tenho passado esses últimos dias pensando em qual seria a melhor forma de contar tudo

        de mim para meus pais. Mas ainda não descobri como. Já tentei escrever uma carta umas
        dez vezes, mas, ao final, rasgo tudo. Como se o que estivesse escrito ali fosse algo que tivesse

        o poder de torná-los extremamente infelizes.”


        O meio: ou como Pedro reencontra João no gesto possível



        “Eu era só um menino, mas foi com João que senti remorso pela primeira vez, que tive
        consciência do que é covardia. Voltei a encontrá-lo em nossa cidade do interior mineiro em

        algumas poucas oportunidades. E em todas elas não fui capaz de me reportar a ele. João
        assumiu sua homossexualidade, e não posso esquecer os comentários maldosos de minha

        mãe, com suas amigas. Eu sentia raiva.
          João tornou-se arquiteto. Quando me mudei para Uberlândia, vivíamos na mesma cidade
        e ainda hoje temos alguns amigos comuns. Mas nunca dividimos uma roda de amigos. É um

        somatório de minha vergonha e da sua mágoa. Para alguns dos amigos em comum, eu contei
        toda a história. Segundo eles, ele nunca mencionou o assunto.

          Uma  noite,  identifiquei-o  numa  boate  GLS.  João  havia  se  tornado  um  homem
        extremamente efeminado, mas muito lindo. Estava rodeado de amigos e, assim que tive
        oportunidade, eu o abordei. Entendo completamente as poucas palavras que ele dirigiu a

        mim. Havia mágoa na forma como ele me tratou, e eu compreendo a sua postura. Não toquei
        no  assunto.  Senti  muita  vergonha  e,  assim  que  pude,  me  afastei.  Não  consegui  pedir
        desculpas. Algum tempo depois eu soube que João havia se mudado para a Austrália. Não

        sei se um dia voltarei a vê-lo.”

                                                                                                 16 de janeiro de 2012

        Por que amamos tanto Lisbeth Salander














        É possível que, como acontece com boa parte dos escritores, o sueco Stieg Larsson não

        apalpasse o tamanho da personagem que criou ao escrever o primeiro volume da série
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