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Por conseguinte, também alteram a dimensão temporal, trazendo outros
acúmulos de mudanças socioambientais que serão vivenciados segundo
as particularidades locais, ou seja, a partir do modo como os processos de
desenvolvimentismo-ambientalização passam a afetar a/s vida/s envolvi-
da/s e seus ritmos (trabalho, lazer, alimentação, (auto)produção, etc.). Cabe
destacar que os polos desse par desenvolvimentismo-ambientalização se
dão em confluência, ao mesmo tempo em que os seus agentes podem pro-
mulgá-los como independentes, o que não significa afirmar que se trate
de uma convivência pacífica entre os seus agentes, nem mesmo que eles
reconheçam tais processos como complementares, como propomos aqui.
Destarte, a costa, o oceano e o interior do Espírito Santo têm sido alvos da
conjugação desses processos de desenvolvimentismo-ambientalização.
No entanto, neste livro são abordadas, predominantemente, duas áreas
costeiras no Espírito Santo, Barra do Riacho e Regência Augusta, locais
onde justamente residem populações ribeirinhas, indígenas, pescadoras,
além de pequenos agricultores, imprensados de várias maneiras. Esse re-
corte empírico-analítico está presente na maior parte das discussões dos
capítulos escritos neste livro, com exceção dos capítulos 1, 9 e 10, cujas
abordagens seguem reflexões mais abrangentes e que, não obstante, são
complementares às demais análises.
O capítulo 1, por exemplo, devota-se ao estudo de documentos, nor-
mativas e diretrizes governamentais relativos às políticas pesqueiras
no Brasil. Ao trazer uma dimensão temporal mais extensa, ajuda a
refletir mais ponderadamente sobre o fato de que as atividades da
pesca de pequena escala e os seus conhecedores-praticantes foram
estigmatizados como símbolos do atraso, ao mesmo tempo em que
a pesca recebeu estímulo à modernização econômica e à industria-
lização, conforme um modelo de políticas públicas elaboradas de
cima para baixo desde a década de 1920. Essa tendência foi mantida
durante o período da centralização e do autoritarismo militar, a par-
tir da década de 1960 até o final da década de 1980. Atualmente, a in-
tervenção ou a regulação da pesca se dá com o viés da preocupação
ambiental, via legislação ou via ocupação da costa, contando com a
conivência e, às vezes, com o fomento estatal, mesmo que este não
atue na forma de intervenção direta. Assim, no momento em que a
industrialização e a exploração econômica mais rentável da costa e
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