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comunidades litorâneas, foco de estudo especial do GEPPEDES. 3

                    Um mergulho inicial nos aspectos da história do Espírito Santo revelou-
                    nos uma trajetória consolidada de investimentos voltados à implantação
                    de grandes projetos econômicos desde a década de 1960, quando teve iní-
                    cio o processo de modernização da economia e a passagem de um modelo
                    agrário exportador para um modelo industrial baseado na produção de
                    commodities também para exportação. Esses investimentos se concentra-
                    ram, e ainda hoje se concentram, nas atividades extrativas de bens pri-
                    mários (minérios, petróleo e gás, celulose) e na expansão logística, com
                    destaque para a infraestrutura portuária, perfazendo, atualmente, R$ 47,5
                    bilhões destinados ao setor de infraestrutura, conforme investimentos
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                    previstos para o período 2015–2020.  Distribuídos de forma relativamen-
                    te homogênea por toda a costa do Espírito Santo, tais empreendimentos
                    têm alterado substancialmente o conjunto do ambiente biofísico e socio-
                    cultural e, por conseguinte, a vida de milhares de pessoas.
                    A análise desse cenário se soma a um conjunto de questões que, embo-
                    ra aparentemente oposto, agrega-lhe significado. Imaginávamos que as
                    mudanças trazidas pelas propostas e iniciativas desenvolvimentistas po-
                    deriam se acumular, do ponto de vista de povos e comunidades locais,
                    com as mudanças socioambientais que porventura fossem trazidas pela
                    criação de unidades de conservação (UC’s), em especial as de proteção in-
                    tegral, que legalmente impedem a permanência de grupos sociais em seu
                    interior por se voltarem para “o uso indireto dos seus atributos naturais”
                    (SNUC, 2000, inciso VI, artigo 2.º). Todavia, também sabíamos que, na
                    prática, esses usos diretos e indiretos do que a legislação chama de recur-
                    sos naturais não se encontram tão separados assim, vide o uso turístico
                    dessas áreas, que, a depender da modalidade e da escala, pode configu-
                    rar-se como deletério socioambientalmente; vide, também, a dispersão de
                    rejeitos de mineração e de outros poluentes no ambiente, que desrespeita
                    as fronteiras territoriais estabelecidas em diferentes arenas decisórias.
                    No Espírito Santo, foram implementadas até agora um total de 26 UC’s,

                    3   Essas conexões, no entanto, foram apontadas por outros autores, para outras áreas ou
                    regiões, ou instâncias, como Barreto Filho (2000), West e colaboradores (2006), Maranhão
                    (2017) e Ferreira e colaboradores (2007), entre outros.
                    4   Fonte: IJSN (2016).





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