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excluindo-se as que se tornaram municipais e as que não saíram do pa-
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pel. Desse total, 16 são de proteção integral e 10 de uso sustentável, sendo
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imprecisos os dados sobre sua extensão territorial. As categorias de ma-
nejo escolhidas dentre as de uso sustentável foram, entre os anos de 1980 e
2018, as áreas de proteção ambiental (APAs) e as florestas nacionais (FLO-
NAS), duas categorias de manejo que não respaldam necessariamente os
direitos dos chamados povos e comunidades tradicionais e moradores lo-
cais, que muitas vezes são ocupantes sem o reconhecimento legal da pro-
priedade. Cabe lembrar que essas duas categorias não preveem conselhos
deliberativos para a gestão, o que garante menor participação decisória
de seus habitantes. As UC’s federais criadas entre 2010 e 2018 foram UC’s
costeiras/marinhas, demonstrando ainda a tendência atual do conserva-
cionismo nacional e internacional de enfocar os ambientes marinhos.
Como em outras situações, algumas áreas foram, e ainda são, mais ou
menos sacrificadas ambientalmente enquanto outras são valoradas e res-
guardadas por seus atributos cênicos, ecossistêmicos, pela diversidade de
espécies ou pela diversidade genética, ou pela presença de espécies im-
portantes para o ambientalismo. A divisão entre áreas mais ou menos res-
guardadas, por sua vez, pode ser vista como outra expressão de um modelo
de pensamento e de relacionamento com outros entes e paisagens, basea-
do na purificação de seres que contam como natureza e seres que contam
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como cultura. Modelo que é (re)atualizado na versão de áreas cedidas
para o desenvolvimento, por um lado, e de áreas que são (ou deveriam) ser
contrabalanceadas através da conservação, por outro. O que também (re)
aparece na ideia de compensação ambiental, que se nutre do princípio do
poluidor-pagador, presente também no Sistema Nacional de UC’s (SNUC,
2000), após ter sido incorporada em legislação ambiental anterior.
Essas alterações nas dimensões espaciais e territoriais, geradas com a cria-
ção de UC’s, imprimem mudanças significativas nas experiências de vida,
nas percepções e nas formas de envolvimento das pessoas e dos grupos
com o ambiente coabitado, o qual muitas vezes são obrigados a deixar.
5 Ver Bis dos Santos (2017) e o site do ISA (uc.socioambiental.org, com vários acessos em
abril de 2018).
6 Como o destacado por Bis dos Santos (2017).
7 Latour (2000).
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