Page 37 - ASAS PARA O BRASIL
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Casado  sob  o  regime  da  separação  de  bens,  eu  nunca  pude  recuperar
                  nenhum móvel, nem lembranças de família e nem mesmo a minha nova
                  espingarda de caça. Desde então, eu nunca mais voltei a caçar.

                  O  primeiro  julgamento  do  divórcio  lhe  foi  muito  favorável:  a  pensão

                  alimentar  amputava  o  meu  salário  por  mais  da  metade.  No  segundo
                  julgamento,  depois  da  sua  fuga  de  Paris,  o  valor  da  minha  pensão  foi
                  reajustado razoavelmente e eu só tinha que pagar pela minha filha.

                  Eu  sempre  paguei  a  minha  pensão  alimentar  apesar  de  sentir  uma
                  profunda injustiça devido ao sequestro da minha filha.


                  Véronique passava regularmente as suas férias na Espanha comigo e eu ia
                  vê-la na Áustria. Entendíamo-nos bem e evitávamos falar do drama que
                  nos separava.

                  Eu tentei junto com o meu advogado, em vão, pedir a guarda da Véronique

                  invocando o mau caráter da mãe dela, sabendo muito bem que os tribunais
                  da época raramente concediam a guarda dos filhos ao pai  – somente se
                  fosse provado que a mãe drogada ou alcoólatra representava um perigo
                  para seu filho.

                      Mesmo assim, eu tentei o procedimento explicando que a minha mulher
                  não era normal.


                  Alguns  anos  mais  tarde,  de  manhã  cedo,  tocou  a  campainha  do  meu
                  apartamento.

                         Uma  grande  surpresa  me  aguardava:  era  Véronique  com  as  suas
                  malas! Aos dezesseis anos, ela tinha fugido de Baden porque não suportava
                  mais o seu padrasto e tinha vindo para Paris no “Oriento Express” de Viena.


                  Ela me contou, rindo, muitos anos depois, durante um jantar com amigos,
                  como ela tinha sido concebida: a minha sogra maquiavélica tinha furado os
                  meus preservativos. Quisesse eu nunca ter ouvido isto.

                  Minha  segunda  esposa  Lídia  era  esteticista  e  me  acompanhou  durante

                  alguns  anos.  Ela  queria  um  filho  e  eu  não.  Foi  provavelmente  um  dos
                  motivos principais da nossa lenta separação.

                  Eu não tinha muita vontade procriar novamente. Primeiro, por causa do
                  meu pequeno salário, e segundo porque eu presenciei todas as dificuldades
                  que a minha mãe teve para sustentar a família. Somente em 1975, a lei do
                  divórcio por consentimento mútuo foi reintroduzida no direito francês.
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