Page 31 - ASAS PARA O BRASIL
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Eu guardo uma grande admiração pela minha mãe, com a qual eu
compartilhava uma profunda paixão: a música clássica. Ela era musicista e
também romântica. Uma noite, eu a ouvi tocar violino e violão, seus dois
instrumentos preferidos.
As noites nessa região são às vezes muito frias e principalmente úmidas e
eram pouco salutares. Ela deixou a sua velha abadia e foi morar na região
de Ariège onde o clima era mais ameno.
Minha mãe era também profundamente religiosa e
não suportava a desigualdade social. Ela praticava a
sua religião com fervor e a vivenciava de um jeito
humilde, quase monacal. Trabalhava duro na sua
propriedade, logo que o sol raiasse – assim como eu,
anos depois – para criar as minhas quatro irmãs. Ela
assava o pão num velho forno medieval e tudo tinha
que ser orgânico. Todos os anos, ela dava a volta ao
país no seu Citroën 2 CV junto de seu fiel
companheiro “Hello”, seu cão de guarda e acampava
bucolicamente em frente das mais belas paisagens
fortificantes de nossas belas montanhas.
Minha mãe quando era jovem. Ela morreu jovem demais.
Eu pegava frequentemente o trem da sexta-feira à noite para ir ao
seu encontro. Eu aproveitava para ajudá-la em certas tarefas penosas de
restauração como lixar as muitas venezianas para em seguida pintá-las.
Às vezes, ao amanhecer, e quando o orvalho ainda cobre a terra e as plantas,
eu saia para caçar patos nos imensos pântanos inundados de Briollay.
Num dia de frio polar, eu caí num buraco fundo escondido por uma
camada de neve. Minhas botas de cano longo estavam molhadas pela água
gelada e meus passos tinham se tornado pesados e lentos.
Más lembranças. Ainda bem que eu não estava muito longe de um albergue
onde eu pude me secar em frente a um agradável e salutar fogo de chaminé
acompanhado de um vinho quente reconfortante. O frio atrapalha e as
frieiras são dolorosas.
O resto da minha “tribo” é bem heteróclito: o meu irmão mais velho Gérard,
nascido no Brasil em 1936 nunca retornou devido ao medo de ter que voltar
a fazer o seu serviço militar que já tinha feito durante a Guerra de
Independência da Argélia. Diplomado de uma grande escola de comércio,