Page 30 - ASAS PARA O BRASIL
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Não podemos esquecer que durante a Primeira Guerra Mundial, as tropas
                  coloniais  africanas  perderam  25  000  homens  mortos  ou  desaparecidos.
                  Após a descolonização de 1960, eu voltei à mesma região, um idoso me
                  perguntou quando os franceses iriam voltar!


                  Da minha passagem servindo a bandeira, eu posso dizer que ela reforçou
                  em mim a minha obstinação e incontestavelmente me amadureceu e me
                  desenferrujou.

                   Os militares têm a convicção de ser diferentes do resto da sociedade devido
                  ao fato de serem eventualmente obrigados a tirar a vida ou sacrificar as suas
                  para a França, o que é perfeitamente compreensível.


                  A reinserção na vida civil é sempre uma prova.

                   Não se pode esquecer que o primeiro traço da vida militar é seu caráter
                  comunitário e que ele deixa inexoravelmente marcas inapagáveis, o que no

                  meu caso foram salutares.

                  De volta à França em fevereiro, para ser desmobilizado, fui destacado para
                  a  base  aérea  do  Bourget,  onde  fazia  muito  frio;  imersão  penosa  muito
                  distante das temperaturas africanas.

                  Nosso trabalho consistia principalmente em transportar caixas e caixas nos

                  aviões que iam para “Reganne”, em pleno deserto argelino onde se soube
                  mais tarde que aconteciam ali os primeiros testes nucleares franceses.

                                                                 CAPÍTULO III


                                       Entreato – Família, entre asas e elas.

                         Ao retornar à vida civil, após este longo destacamento, eu aterrissei
                  duramente na realidade da vida de Paris.

                  Minha situação não era brilhante, eu estava sem lar, com poucos recursos,
                  completamente desorientado, largado sem pontos de ancoragem. O ninho
                  familial tinha se desintegrado.


                  Minha mãe, numa situação de grande precariedade após um casamento do
                  qual ela se esforçava em assumir o fracasso, tinha deixado Paris com as
                  minhas  irmãs.  Ela  conseguiu  se  hospedar  numa  velha  abadia  perto  da
                  cidade de Angers.


                  Sua paixão era a ecologia; ela dedicou o resto da sua vida à agricultura e à
                  criação  de  patos.  Ela  tratou  de  ser  benevolente  e  altruísta  com  o  seu
                  semblante. Foi a primeira em plantar maçãs orgânicas na região de Anjou.
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