Page 25 - ASAS PARA O BRASIL
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Às vezes, à noite, eu ia com o Coronel, médico da base, caçar patos
selvagens e outros pássaros migratórios “ao passar”, numa lagoa chamada
“Tamna”, perto de Thiès.
Era mais uma lagoa pantanosa, pouco profunda, com uma extensão de
água onde tínhamos que cobrir o rosto para nos proteger das nuvens de
mosquitos ferozes.
Certo dia, atolado até os ombros no pântano, eu vi de longe uma leoa
faminta que rastejava, numa mata minguada, para atacar um pelicano.
Felizmente, ela não me viu, já que estava tão concentrada na sua presa e
talvez porque eu estava contra o vento; eu teria sido incapaz de me defender
atolado na lama com uma espingarda e balas de calibre seis.
Eu tive tanto medo que minha bota de cano longo estava molhada por
dentro...
Há mais de sessenta anos, este tipo de encontro era raríssimo nessa
região do Senegal. As únicas feras hoje no Senegal estão na reserva do
“Niokolo-Koba” e em pequena quantidade.
Minha saúde guardou sequelas desta dura época africana: paludismo,
amebas, rickettsioses, e mesmo agora, bem que raramente, eu tenho
pequenas crises de malária.
O clima do Senegal é árido durante oito meses e algumas zonas são
desérticas. Durante a época das chuvas que começa geralmente no mês de
agosto, exércitos de efemérides rodopiam em volta dos lampadários
brancos; são os primeiros sinais do renascimento da natureza.
No começo das chuvas, a terra exala um cheiro particular que delicia nosso
olfato e é chamado de “petrichor”.