Page 21 - ASAS PARA O BRASIL
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Os salários dos aprendizes da Air France eram magros, mas após um ano
                  de presença, se abriam as portas dos fabulosos “GPII”, um desconto de 90%
                  sobre  o  preço  real  das  passagens  de  aviões,  em  função  das  ofertas
                  disponíveis.


                  Muitas  vezes,  em  vez  do  meu  “café-
                  croissant”, eu pulava no primeiro voo
                  para  Londres,  em  Vickers  Viscount
                  (com  grandes  janelas  ovais),  fazendo
                  uma  ida  e  volta  no  mesmo  dia,  para
                  comprar agasalhos de caxemira, muito
                  mais baratos do que na França.


                  Isso me permitia completar o salário do mês, já que os tempos eram sempre
                  difíceis, e, além disso, eu ainda era gratificado com os sorrisos benevolentes
                  destas damas loucas por caxemira.

                  Um dia em que fazia um estágio no escritório da Air France, na Esplanada
                  dos Inválidos, vimos chegar ao balcão de “check in” um Africano puxando

                  com dificuldade uma caixa grande.

                  Eu perguntei a ele sobre o conteúdo da caixa e ele me respondeu com uma
                  inocência total que se tratava do pai dele que ele iria enterrar em Dakar.


                   Quando  os  voos  não  estavam  lotados,  podia-se  atingir  momentos
                  paradisíacos.

                  Foi na minha primeira viagem de volta ao Rio de Janeiro, que eu pude pela
                  primeira vez comer uma lata de caviar excelente nos céus, a bordo de um
                  avião   Constellation Super Star.

                         Também é verdade que eu era o único passageiro nessa cabine de

                  primeira  classe  naquele  dia  e  eu  passei  uma  excelente  noitada  tendo
                  sentido o gosto do luxo.

                  Eu tinha sido convidado pela minha tia-avó Rosie, que se fazia passar por
                  uma princesa franco-polonesa.


                  Era  uma  criatura  elegante  iluminada  de  muitas  joias  ambíguas  e  que
                  venerava  o  uísque.  Ela  morava  num  apartamento  grande  e  luxuoso  no
                  bairro de Botafogo.

                   Esta mulher loira e alta, que possuía uma beleza sofisticada, evidenciando
                  fausto e elegância, mofava profundamente na ociosidade e no ciúme.
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