Page 28 - Revista - Rio e Mar
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rem recebido o auxílio, enquanto moradores de fato não
QUANDO TUDO PARECE SE MISTURAR
o puderam receber porque não teriam o perfi l de atingi-
Os fatos relacionados às medidas socioambientais e do, defi nido segundo a Fundação Renova. Em Regência
à questão da “lama”, apesar de narrados, por muitas Augusta, as consequências disso podem ser notadas nas
vezes, em separado, se unem em outros momentos, privações dos moradores, facilmente observadas, como a
de forma que, tal como o encontro do rio e o mar, bor- perda do lazer, do alimento e das atividades de trabalho.
bulham dúvidas e inseguranças entre os moradores.
“Eu, minha fi lha...falar a verdade a minha [vida] mudou muito,
No rio, na foz e no mar os rejeitos de mineração né… a minha mudou demais porque, hoje, eu falo a verdade
aparecem como corpo estranho nesse encontro, e a
população, incrédula, mas não sem esperança, se vê para você, eu sou moradora aqui de Regência e não tive direito
cercada de injustiças e de sentimentos imensuráveis. a cartão da Samarco. Eu vivo da pensão que o meu marido dei-
Historicamente, os moradores da região vêm perden- xou. A verdade pra você, falo a verdade para todo mundo… por-
do direitos, ora pelos grandes empreendimentos que que a minha pensãozinha é minha pensãozinha, não sou nem
afetam diretamente a população ora pelos que des- aposentada. Eu só tenho a minha pensão. Mas e... tô vivendo.
troem o ambiente em nome do progresso e, em certa [...] Porque você todo dia ter que comer uma comida duas só [...]
medida, por alguns dos que preservam a natureza. As porque o peixe é tudo pra gente…” (conguista, set. 2017).
palavras dos moradores muitas vezes são abafadas,
em outros casos não são ouvidas, mas quando ouvi- “Foi outro problema essa lama da Samarco. Que essa lama da Sa-
das não são consideradas relevantes. marco quando veio, essa maldição, se pode se dizer assim, veio
que arrebentou a barragem e despejou no Rio Doce. Passou uns
Quadro 6 - Texto de Luiz Otávio Duarte sobre a situação em Regência dias e disseram que a gente não podia pescar mais. Veio um pes-
Augusta. GEPPEDES, 2018. soal fazer um censo aqui pra indenizar os pescadores. Muita gen-
te recebeu, mas fi zeram um negócio mal feito.” (pescador antigo,
Por conta da lama, a interdição da atividade da pesca foi Barra do Riacho, 2017).
solicitada em fevereiro de 2016, por uma Ação Civil Pública
Em Barra do Riacho, a presidente da Colônia de Pesca
instaurada em Linhares, englobando desde Barra do Ria-
nos relatou alguns problemas vivenciados:
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cho, em Aracruz, até Degredo/Ipiranguinha, em Linhares.
Ela afetou pescadores, donos de peixarias e seus funcioná- “os nossos pescadores estão passando por uma situação muito
rios, consumidores que não se sentiam, e muitos ainda não crítica, né, (...) a gente tem já problema com a área fechada, né,
os 20 metros de profundidade que é proibido pescar, é uma área
se sentem, seguros para consumir regularmente o alimen-
no qual existe o berçário de camarão que é o que o rendimento
to. A atividade foi proibida em área inferior a 20 metros de
maior do pescador aqui da região é esse, né, então a gente tem
profundidade, atingindo também outros pescadores que
esse problema. Alguns pescadores não tão tendo ajudas da em-
não residem nessas áreas, mas as têm como pesqueiros.
presa no qual foi determinada o fechamento... da área devida essa
O fato do auxílio emergencial da Samarco não ter sido a empresa Samarco, né, então muitos não estão tendo um retor-
distribuído a todos os moradores atingidos gerou discus- no, uma ajuda, né, e tão com os barcos aí parados.”
sões e mobilizações nas duas localidades estudadas. Ou-
vimos muitas queixas sobre o fato de não moradores te-
com o GEPPEDES, aborda as repercussões desse processo. Disponí-
vel em: goo.gl/v24e3h. Acesso em: 8 de jul. de 2017.
3 Processo 0002571-13.2016.4.02.5004.
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