Page 29 - Revista - Rio e Mar
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inclui tanto a água servida pelo SAAE como pela Samar-
A FUNDAção reNoVA
co nos caminhões-pipa, quanto as águas do rio Doce, do
O estatuto da Fundação Renova foi assinado em ju- oceano e dos lençóis freáticos. Em Regência Augusta, a
nho de 2016 e sua criação é contestada por atingidos prática de cavar poços artesianos é comum, mas como a
e também no meio jurídico. Teoricamente, trata-se de
uma organização à qual caberia realizar programas água encontrada possui cheiro ruim e oleosidade, alguns
socioambientais e socioeconômicos para lidar com as a nominaram de “enferrujada” ou “broca”, e suspeitam
consequências causadas pelo rompimento da barra- de contaminação pela exploração de petróleo na região,
gem de Fundão, em Mariana-MG, em novembro de que ocorre desde o final da década de 1970. Quem tem
2015. Contudo, suas mantenedoras são as próprias dinheiro compra água mineral para uso nas atividades
empresas responsáveis pela barragem que se rompeu:
a Samarco e suas parceiras, Vale S.A. e BHP Billiton. cotidianas, principalmente para cozinhar os alimentos,
prática comum também em Barra do Riacho.
A privação alimentar também foi muito mencionada. Ela Diante das evidências do crime-desastre ambiental e
decorre tanto da interdição quanto das incertezas dos suas repercussões em cada uma das localidades estuda-
possíveis impactos dos rejeitos de mineração sobre a saú- das, cabe afirmar que todos foram atingidos! Pescadores,
de tanto de peixes quanto dos humanos que deles se ali- agricultores, comerciantes, consumidores do pescado,
mentam. O ato de comer peixes, e mesmo o de falar sobre surfistas, ou seja, moradores, moradoras e trabalhadores
o assunto, ganhou certa conotação de clandestinidade. que tiveram suas vidas completamente alteradas e afeta-
das pela “lama da Samarco”.
“de vez em quando eu como um peixinho!! Pessoal aí tudo
come peixe. A maior parte dele come peixe. Mas fiquei...
mais de ano sem comer. Mais de ano! Mais de ano sem co- “É igual o meu [omissão de parentesco] aqui no Rio Doce,
mer peixe, tudo da venda. Tudo [enfatizado] da venda! Antes ele mora em Povoação. Ele plantou um cacauzinho, tava
da água vir, o negócio aqui já não tava fácil, agora que... de- desse tamanho o cacauzinho dele, a água veio tacou e ma-
pois da água pra cá, pronto, fiado tudo na venda. Isso se não tou, tacou ela, cobriu o cacau e não veve mesmo né, aí a
quiser comer feijão puro, né! Mas tem... que comprar, né. Aí Samarco foi lá, olhou, tirou retrato do sítio do cacau dele
quer dizer, que aí... atrapalhou um pouco o pessoal, né. Que a que tinha morrido, aí depois ligou pra ele e falou pra ele
gente nem sempre ficava aí... dez, 15 dias sem comer uma car- que ele não tinha direito. Mas como não tinha direito?”
ne!! Aqui... porque, peixe tinha demais, né. Muitos nem com- (morador de Areal, 2017)
prava, ganhava peixe aí, e... comprava não. Mas depois que
essa água chegou, pronto, aí foi tudo pra venda. Pra balança.” “Tem atingido sim, então, atingido financeiramente, sei lá,
(tecelão de redes, 73 anos, Regência Augusta, set. 2017). pessoalmente, emocionalmente, espiritualmente, de tudo
qualquer jeito possível. [...] É porque também no começo
“aí no dia que eles tiveram aqui, ‘pescavam?’ pescava!...
era tudo muito novo, a gente imaginava uma coisa como
todo mundo que morava no Rio Doce pescava, só não pes-
seria, mas dentro do que imaginava nessa questão da que-
cava pra comércio, o pessoal pescava pra se alimentar.”
da do turismo, da imagem negativa, isso aí eu já, principal-
(morador de Areal, 2017).
mente esse pessoal do surfe são muito ligados à questão de
natureza, meio ambiente, então eu sabia que afetaria meu
público diretamente.” (atingido do surfe, Regência Augus-
A questão da qualidade da água é outro problema le-
ta, 30 de maio 2016).
vantado pelos moradores de ambas as localidades. Isso
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