Page 39 - Os Manuscritos do Mar Morto
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Esse comentário nos leva a entender a diferença existente entre a tradição textual
paulina, joanina e dos sinóticos. Tendo em mente que a divisão destas tradições é
necessária, posicionando-as em estratos e estágios diferentes, as possibilidades de se
encontrar analogias entre os livros de Qumran e os escritos do NT se tornam maiores e
mais fidedignas. Como expressado por Albright acima, desde as primeiras publicações
dos MQ até hoje, esse raciocínio apresenta-se como correto.
Após este esboço acerca dos paralelos entre o NT e os MQ, analisando de forma
mais pormenorizada os escritos joaninos e os sinóticos, faz-se necessário observar o
corpus bíblico paulino, que apresenta, tanto quanto o joanino, um grande número de
analogias com os escritos de Qumran.
Se nos escritos paulinos a idéia de redenção não girasse em torno da fé e do
Cristo (Gl 2:16), seria difícil provar que trechos de suas epístolas não teriam tido
influências dos essênios. Essa diferença existe graças à escatologia cristã do século I
estar um capítulo à frente da qumrânica; pois nesta, ainda se aguardava a vinda de um
mashiah (Messias), fato já ocorrido para as comunidades cristãs.
Uma das sinas de Paulo que podem ser testificadas em suas epístolas é a da
natureza pecadora dos indivíduos e sua capacidade de obter o perdão não por sua
própria vontade, mas sim pela misericórdia divina que o foi concedida. Este é o
resultado alcançado devido à condição decaída da humanidade, “pois todos pecaram e
estão privados da graça de Deus” (Rm 3:23). Essa idéia paulina é encontrada nos livros
sectários de Qumran. Alguns dos autores dos manuscritos compartilham desse mesmo
sentimento de insignificância frente ao Altíssimo ou aos Seus poderes. Em um hino da
Regra da Comunidade pode-se perceber isso:
Porém eu pertenço à humanidade ímpia, à assembléia da carne iníqua;
minhas faltas, minhas transgressões, meus pecados, com as perversões de
meu coração, pertencem à assembléia dos vermes e dos que andam nas
trevas. Pois ao homem (não lhe pertence) o seu caminho, nem ao ser
humano o afirmar seu passo; posto que o juízo (pertence) a Deus... Quanto a
mim, se eu tropeço, as misericórdias de Deus serão minha salvação para
sempre; se eu caio em pecado de carne, na justiça de Deus, que permanece
eternamente, estará o meu juízo (1QS 11:9-12).
Nos Hinos de Ações de Graças (1QH), pode-se encontrar em diversas passagens
o mesmo ponto de vista descrito em 1QS 11:9-12 e em Paulo, como por exemplo: