Page 38 - Os Manuscritos do Mar Morto
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Mateus. A dualidade de Qumran entre luz e trevas expressa em 1QS é vista em Mt em
sua diferenciação entre os dois “caminhos” (Mt 7:13-14). Em 1QS 3:20-21, o autor fala
sobre “caminhos de luz” e “caminhos de trevas”. A exortação do não-juramento
incentivada por Mateus (5:35-36) também possui antecedentes em Qumran.
A preocupação geral de Mateus em seu Evangelho é a de provar o quanto os
eventos narrados por ele são o cumprimento das expectativas messiânicas anunciadas no
AT. A expressão “para que se cumprisse...” é encontrada diversas vezes (1:22; 2:15;
2:23; 4:14; 5:17,18; 8:17; 12:17; 13:35; 21:4). Sua intenção em ressaltar a legitimidade
de acontecimentos do presente pelas “Escrituras” (21:42; 22:29; 26:56), mostra a
importância que dá ao querer relacionar seu Evangelho com os livros considerados
sagrados da época. Isso pode fazer-nos pensar que as fontes utilizadas por Mateus não
foram tão abrangentes assim. Porém, não analisando as suas formas de discurso como
um todo, mas apenas pequenos aspectos etimológicos e teológicos, notamos que há
indícios de sincretismos morfológicos.
Lucas, quando narra as Bem-Aventuranças, vai além ao acrescentar uma série de
“ais” (6:24-26) contra os “ricos e saciados”. O bendizer dos pobres e o maldizer dos
ricos é também encontrado no sectário livro de Enoch, mostrando que a evolução das
Bem-Aventuranças como descritas por Mateus e Lucas podem ser paralelas à evolução
dos ais.
Em 1956, William Foxwell Albright (1891-1971), renomado arqueólogo e
epigrafista de seus dias, resumiu a questão das analogias entre os sinóticos e os MQ, já
abrindo espaço para onde deveria fixar-se o foco das pesquisas:
Há muitas analogias entre os novos pergaminhos e os Evangelhos
Sinópticos, as epístolas paulinas e os livros restantes do N.T, mas essas
analogias são mais abundantes nas áreas em que os livros do N.T. em
questão se assemelham mais ao Evangelho de João. As analogias entre os
novos pergaminhos e a literatura paulina são quase tão importantes para
nosso propósito quanto as outras, uma vez que tem havido uma tendência
secular de afastar o máximo possível o Evangelho de João das epístolas de
São Paulo. O mesmo dualismo ético aparece em todo o N.T., mas mais uma
vez é expressado com mais força por João e Paulo (ALBRIGHT, 1956:167,
apud FLUSSER, 2000:50).
depois da destruição de Jerusalém (70 d.C.), provavelmente até o final do século I, que realizou-se na
cidade de Jâmnia, ao sul da Palestina, um sínodo que estabeleceu o fechamento do cânon hebraico. A
expressão Antigo Testamento, em certo ponto aviltada pelo cristianismo, é originária do apóstolo Paulo
(2Cor 3:14). Antes disso, os livros eram chamados apenas por Escrituras, como visto em algumas
passagens dos Evangelhos (Mt 21:42; Mc 12:24). No entanto, para uma generalização que venha a
auxiliar na compreensão de passagens e livros aqui citados, será utilizado o emprego do termo por diante.
25 O texto traduzido por Émile Puech denominado 4Q525 é um fragmento de obra sapiencial que contém
uma série de Bem-Aventuranças.