Page 35 - Os Manuscritos do Mar Morto
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vários pontos de contato entre escritos sectários de Qumran e o NT. Cross pôde
perceber semelhanças na linguagem teológica, nas doutrinas escatológicas e nas
relações organizacionais e litúrgicas da comunidade do mar Morto (cf. 1958, passim).
Focalizando os escritos joaninos, termos que pareciam peculiares a João como
“espírito da verdade e o espírito do erro” (1Jo 4:6), 19 “luz da vida” (Jo 8:12), “vida
eterna” (Jo 3:15,16); já existiam na Regra da Comunidade de Qumran. Não apenas
estes termos, mas também as antíteses da literatura joanina como: luz e escuridão,
verdade e mentira, espírito e carne, amor e ódio, morte e vida – termos característicos
do dualismo bondade/maldade – , são encontrados na literatura qumrânica. Apesar de
termos como esses e os já citados acima também aparecerem em outras partes do NT, a
literatura joanina deve ser analisada diferentemente dos outros livros do NT, pois possui
linguagens e pensamento peculiares. Como resumiu Frank Kermode, “é atualmente
consensual que o Quarto Evangelho tem fontes tão antigas quanto as disponíveis aos
sinópticos, embora amplamente independentes delas” (1997:473).
Antes das descobertas dos MQ, pensava-se que os escritos joaninos fossem uma
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forma de gnosticismo, a saber, o mandeano. Após, pôde-se perceber o quanto João
bebeu da água dos essênios.
Veja como o dualismo é trabalhado neste hino da Regra da Comunidade:
Do manancial da luz provêm as gerações da verdade,
e da fonte das trevas as gerações de falsidade.
Na mão do Príncipe das Luzes
está o domínio sobre todos os filhos da justiça;
eles andam por caminhos de luz.
E na mão do Anjo das trevas
está todo o domínio sobre os filhos da falsidade;
eles andam por caminhos de trevas.
Por causa do Anjo das trevas se extraviam
todos os filhos da justiça, e todos os seus pecados,
suas iniqüidades, suas faltas e suas obras rebeldes,
estão sob o seu domínio (1QS 3:19-22).
O autor desse texto torna bem explícito o pensamento sectário a respeito da
polarização do bem e do mal. Em João, podem-se encontrar várias passagens que
19 o
Nas citações bíblicas (salvo as que possuem outra indicação) utilizo a BÍBLIA DE JERUSALÉM. 7
Impressão Revista. São Paulo: Paulinas, 1995.
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Segundo o Dicionário ilustrado das Religiões (SCHWIKART), o gnosticismo (do grego gnôsis:
conhecimento) foi uma corrente espiritual paralela ao cristianismo nascente. Os adeptos do gnosticismo
procuravam dar resposta à pergunta “como apareceu o mal no mundo”. Pregava que o homem como tal
“não é pecador, mas dentro dele trava-se uma luta perpétua entre Bem e Mal”. O objetivo do
gnosticismo era identificar essa luta através do conhecimento e assim alcançar a redenção.