Page 30 - Os Manuscritos do Mar Morto
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                  publicação dos manuscritos, atribuíam as críticas que Allegro recebia por sua conduta e

                  interpretações  como  sendo  “perseguição”,  insinuando  que  ele  seria  uma  espécie  de
                  “delator” de conteúdos que poderiam abalar a fé cristã – algo que desagradaria o resto

                  da  equipe.  Ora,  a  equipe  original  formada  por  oito  estudiosos  passou  por  intensas
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                  modificações até a chamada “revolução” de 1991,  atingindo mais de 60 especialistas.
                  Por  fim,  o  número  alcançado  ao  final  das  publicações  da  série  Discoveries  in  the
                  Judaean Desert, em 2002, foi de 106 estudiosos. Ainda assim, nenhum conteúdo que

                  pudesse  “destruir”  a  Igreja  foi  encontrado,  mesmo  por  aqueles  que  a  princípio  não

                  faziam parte da equipe original e a ela desferiam acusações de protecionismo referente a
                  assuntos que pudessem pôr em “xeque” o cristianismo.

                         Entre a primeira geração de estudiosos dos MMM, também existiram outros que
                  se utilizaram destes documentos com a intenção de “desmistificar” o cristianismo assim

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                  como  Allegro.   André  Dupont-Sommer  (1900-1983),  na  década  de  50,  dizia  entre
                  outras  coisas  que  o  relato  de  Jesus  no  NT  era  uma  transposição  do  que  ocorreu

                  anteriormente a uma figura histórica da comunidade de Qumran, conhecida pelo nome

                  de Mestre da Justiça (Moreh Tsedeq). O modelo deixado pelo Mestre da Justiça nos
                  MQ, segundo Dupont-Sommer, precede o de Jesus em bondade, humildade, amor ao

                  próximo e outras qualidades dadas a ele no NT. Atribui a “originalidade” ao Mestre da

                  Justiça e apresenta a figura de Jesus construída à imagem dele. Hoje, alguém que tenha
                  um conhecimento razoável dos MQ e do NT, percebe que o número de  disparidades

                  supera em muito o de semelhanças. Uma insinuação como esta não é cabível, mesmo
                  tratando-se da época em que foram feitas as descobertas dos MQ, já que não havia base

                  documental para tais afirmações.
                         À medida que os estudos foram avançando e novas publicações trazendo mais

                  informações,  teses  como  a  de  Dupont-Sommer  foram  caindo  por  terra.  O  mesmo

                  aconteceu  com  a  teoria  de  Edmund  Wilson  (1895-1972).  Wilson,  que  considerava  o
                  cristianismo  como  um  “desenvolvimento  natural  de  uma  forma  do  judaísmo”,

                  acreditava  que  a  comunidade  de  Qumran  tinha  sido  o  elo dessa  “evolução”  (cf.
                  VANDERKAM,  1993:191).  Essa “evolução”,  compreendida  como  tal,  estaria  com  a



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                    Essa “revolução” teve início um ano antes, com a saída de John Strugnell da direção do International
                  Team.  Logo  em  seguida,  as  instituições  responsáveis  pela  divulgação  dos  manuscritos  começaram  a
                  liberar paulatinamente seus arquivos.
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                     Allegro,  depois  de  descreditado  por  sua publicação  mal  elaborada na série DJD  e  por  sua  malvista
                  busca pelos “tesouros” descritos no Pergaminho de Cobre, acabou ainda mais desacreditado depois de
                  publicar obras ainda mais incisivas contra o cristianismo, a saber: The Sacred Mushroom and the Cross
                  (1970) e The Dead Sea Scrolls and the Christian Myth (1984).
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