Page 29 - Os Manuscritos do Mar Morto
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ótica, reforçando grandemente o caráter teológico e diminuindo sua importância social.
João Batista serviu claramente como um “vetor”, que trouxe consigo a maneira de
pensar de certo grupo, e, tendo migrado a outro, seu ponto de vista recebeu uma nova
roupagem.
Como dito acima, o essenismo com certeza não era um movimento inteiramente
coeso ideologicamente. No caso do cristianismo também não podemos limitar seu
nascimento a um único estrato, pois as comunidades cristãs se encontravam amplamente
dispersas no território bíblico e sob a influência de personalidades diversas. Isso nos
leva à conclusão de que o mais correto é tratar o cristianismo do século I como
“cristianismos”. Infelizmente, a maior parte dos especialistas, ao tratar das influências
essênias sobre o cristianismo, não dá respostas claras quanto ao caminho percorrido por
estas influências e/ou empréstimos, sobre quais foram os estratos cristãos que sofreram
influência e se estas vieram de Qumran ou de uma outra comunidade sectária.
Estes são questionamentos extremamente importantes que devem ser feitos ao
objeto de pesquisa antes da formulação de determinada proposição. Porém,
infelizmente, muitos foram os casos (alguns persistem ainda hoje) em que estes
questionamentos foram desconsiderados.
O comportamento áspero de Allegro no trato de assuntos referentes ao
cristianismo foi muito explorado por pessoas que se utilizavam de seus comentários (e
até certo ponto seus equívocos) para cunho sensacionalista. Afinal, um membro da
própria equipe de edição era o responsável por tais críticas. Allegro, único membro da
equipe original que não seguia alguma religião, foi muito criticado por seus colegas de
equipe por suas interpretações de alguns manuscritos. Conforme ressaltou Joseph
Fitzmyer a respeito da quinta publicação da série Discoveries in the Judaean Desert 14
(1968) encabeçada por Allegro, “a maior parte dos textos da Gruta 4 publicados na
série DJD ou em edições preliminares foi editada com competência. Mas há uma
exceção notória. É o volume publicado por John M. Allegro” (1997:166).
Alguns pesquisadores que estavam fora do International Team e não possuíam
conhecimento dos problemas internos pelos quais passava a equipe no que concerne à
14
A edição oficial dos textos encontrados no deserto da Judéia foi publicada na série Discoveries in the
Judaean Desert (DJD). A coleção abrange não só textos oriundos das grutas de Qumran, mas também de
Massada, Wadi Daliyeh, Wadi Seiyal, Nahal Mishmar, Khirbet Mird, Nahal Hever, Wadi Murabba’at e
Nahal Se’elim. Compõe-se de 39 volumes publicados (sem contar os adicionais) desde 1955 até 2002 pela
Oxford University Press. Se somadas, o número de páginas da coleção alcança mais de 12.000.