Page 29 - Os Manuscritos do Mar Morto
P. 29

28



                  ótica, reforçando grandemente o caráter teológico e diminuindo sua importância social.

                  João  Batista  serviu  claramente  como  um  “vetor”,  que  trouxe  consigo  a  maneira  de
                  pensar de certo grupo, e, tendo migrado a outro, seu ponto de vista recebeu uma nova

                  roupagem.
                         Como dito acima, o essenismo com certeza não era um movimento inteiramente

                  coeso  ideologicamente.  No  caso  do  cristianismo também  não  podemos  limitar  seu
                  nascimento a um único estrato, pois as comunidades cristãs se encontravam amplamente

                  dispersas no território bíblico  e sob  a influência de personalidades diversas.  Isso  nos

                  leva  à  conclusão  de  que  o  mais  correto  é  tratar  o  cristianismo  do  século  I  como
                  “cristianismos”. Infelizmente, a maior parte dos especialistas, ao tratar das influências

                  essênias sobre o cristianismo, não dá respostas claras quanto ao caminho percorrido por
                  estas influências e/ou empréstimos, sobre quais foram os estratos cristãos que sofreram

                  influência e se estas vieram de Qumran ou de uma outra comunidade sectária.
                         Estes são questionamentos extremamente importantes que devem ser feitos ao

                  objeto  de  pesquisa  antes  da  formulação  de  determinada  proposição.  Porém,

                  infelizmente,  muitos  foram  os  casos  (alguns  persistem  ainda  hoje)  em  que  estes
                  questionamentos foram desconsiderados.




                         O  comportamento  áspero  de  Allegro  no  trato  de  assuntos  referentes  ao
                  cristianismo foi muito explorado por pessoas que se utilizavam de seus comentários (e

                  até  certo  ponto  seus  equívocos)  para  cunho  sensacionalista. Afinal,  um  membro  da
                  própria equipe de edição era o responsável por tais críticas. Allegro, único membro da

                  equipe original que não seguia alguma religião, foi muito criticado por seus colegas de
                  equipe  por  suas  interpretações  de  alguns  manuscritos.  Conforme  ressaltou  Joseph

                  Fitzmyer a respeito da quinta publicação da série Discoveries in the Judaean Desert 14

                  (1968) encabeçada por Allegro, “a maior parte dos textos da Gruta 4 publicados na
                  série  DJD  ou  em  edições  preliminares  foi  editada  com  competência.  Mas  há  uma

                  exceção notória. É o volume publicado por John M. Allegro” (1997:166).
                         Alguns pesquisadores que estavam fora do International Team e não possuíam

                  conhecimento dos problemas internos pelos quais passava a equipe no que concerne à



                  14
                    A edição oficial dos textos encontrados no deserto da Judéia foi publicada na série Discoveries in the
                  Judaean Desert (DJD). A coleção abrange não só textos oriundos das grutas de Qumran, mas também de
                  Massada, Wadi Daliyeh, Wadi Seiyal, Nahal Mishmar, Khirbet Mird, Nahal Hever, Wadi Murabba’at e
                  Nahal Se’elim. Compõe-se de 39 volumes publicados (sem contar os adicionais) desde 1955 até 2002 pela
                  Oxford University Press. Se somadas, o número de páginas da coleção alcança mais de 12.000.
   24   25   26   27   28   29   30   31   32   33   34