Page 31 - Os Manuscritos do Mar Morto
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descoberta dos MQ recebendo seu impulso maior, chegando a uma situação sem volta
em que as provas demonstrariam como esse “processo” ocorreu.
Como dito acima, essas interpretações que supostamente abalariam os alicerces
da fé cristã foram sendo suprimidas à medida que os estudos dos MQ avançaram sob as
mãos de pesquisadores mais prudentes e pacientes. No entanto, mesmo em tempos
recentes, pode-se encontrar alguns estudiosos com posições que divergem em pontos
fundamentais da maioria dos outros pesquisadores. Entre esses, um dos mais destacados
é o historiador Robert Eisenman, da Universidade da Califórnia. Eisenman afirma que
personagens históricos dos MQ, como o Mestre da Justiça, o Mentiroso e o Sacerdote
Ímpio, são pseudônimos atribuídos a indivíduos também conhecidos do NT. Para ele, a
comunidade de Qumran tinha um relacionamento amplo com Jerusalém. Além disso,
ela veio a tornar-se uma comunidade sectária muito tardiamente, apenas no século I d.C.
Essa é a base cronológica criada por ele para que sejam possíveis as comparações entre
figuras históricas da comunidade com as conhecidas do NT; como Tiago, irmão de
Jesus (este é para Eisenman o Mestre da Justiça) e o apóstolo Paulo (Paulo tornou-se o
Mentiroso).
Seguindo a mesma linha de Eisenman no que refere à identificação dos
pseudônimos de Qumran, Bárbara Thiering, teóloga da Universidade da Austrália,
acredita que João Batista foi o Mestre da Justiça e que Jesus foi o Sacerdote Ímpio (cf.
FITZMYER, 1997:123).
Não é necessário fazer comentários aprofundados sobre os equívocos de teses
aparentemente “reveladoras” como estas, basta dizer que toda a cronologia consensual
acerca da comunidade de Qumran tem de ser ignorada. São poucos os especialistas que
defendem teorias similares.
Todo esse conteúdo envolvendo questões aparentemente comprometedoras ao
cristianismo foi muito aproveitado pela mídia sensacionalista e por autores
descompromissados com o devido rigor científico. Entre esse tipo de produção, um
livro chamado As intrigas em torno dos Manuscritos do Mar Morto (do original em
inglês The Dead Sea Scroll Deception, de 1991) recebe destaque. Os autores, dois
jornalistas que já escreveram sobre temas completamente díspares (sobre MMM e Santo
Sudário, por ex.), reúnem as teses mais criticadas no meio acadêmico e as apresentam
com a alegação de trazerem à tona um “conteúdo proibido” pelos que estavam próximos
aos manuscritos. Com capítulos intitulados como “o escândalo dos manuscritos” e “a