Page 36 - Os Manuscritos do Mar Morto
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expressam o sentimento dualístico. Similar ao Anjo das trevas de Qumran, encontramos
em João as sentenças: “Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de
vosso pai” (Jo 8:44). Embora nesta comparação seja dado apenas o lado mal desse
dualismo (ambos utilizando inclusive uma deidade maligna para representá-lo), o lado
do bem demonstra uma simbologia ainda mais acentuada, enunciada comumente pela
expressão luz. O texto de 1QS 3:19-22 mostra que a luz também possui seu
representante – o Príncipe das Luzes – e que ele possui maior autoridade. De forma
resumida, porém não menos inteligível, outra passagem da Regra manifesta esse
dualismo:
As coisas reveladas sobre os tempos fixados de seus testemunhos,
para amar a todos os filhos da luz,
cada um segundo o seu lote no plano de Deus,
e odiar a todos os filhos das trevas,
cada um segundo a sua culpa (1QS 1:9,10).
Esta passagem de 1QS destaca a expressão “benei ’or” (filhos da luz), utilizada
pelos habitantes de Qumran para se autodenominarem. Seu uso prova a concepção
própria de uma seita escatológica, ao contrastar luz e trevas e polarizar o mundo entre
filhos destes e filhos daqueles.
Traçando um paralelo com João, veja como o evangelista se utiliza da expressão
em Jo 12:36: “enquanto tendes a luz, crede na luz, para vos tornardes filhos da luz”.
Esta passagem manifesta bem a importância que o apóstolo dava na designação
daqueles que pertenciam a seus círculos, sendo a terminologia empregada por ele igual à
utilizada pelo autor de 1QS. Em 1Jo 3:10, o apóstolo mostra um exemplo de sua
habilidade no manejo do jogo de antíteses similar à dos autores de Qumran, trabalhando
o embate entre essas duas forças do seguinte modo: “Nisto se revelam os filhos de Deus
e os filhos do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que
não ama o seu irmão”.
Vale lembrar que a expressão “filhos das trevas” citada em 1QS não é
encontrada no NT, sendo a expressão “filho da perdição”, atestada em Jo 17:12, a mais
próxima daquele termo. Graças a isso, não se pode aplicar a divisão do mundo entre
dois grupos adotada por Qumran como sendo similar à mensagem de João e do restante
NT. Esta em geral, apesar de não apresentar univocidade em seus estratos e estágios
iniciais, pretende-se como universal.