Page 41 - Os Manuscritos do Mar Morto
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                         A  literatura  atribuída  a  Paulo  compõe  os  escritos  mais  antigos  do  NT. Além

                  disso, as comunidades a que Paulo escreve são todas fora da Judéia. Essa é uma análise
                  um tanto esquecida pelos pesquisadores, uma vez que se limitam por vezes a fazer uma

                  análise  exegética  das  terminologias,  porém  restringem  o  contexto  histórico  a  poucos
                  comentários.  Mais  à  frente,  trabalharei  pormenorizadamente  com  a  literatura  hinária

                  produzida em Qumran e sua relação com a teologia e hinos paulinos, buscando explicar
                  os limites entre as contribuições dadas pela teologia e eclesiologia essênia ao apóstolo

                  Paulo.

                         Por  fim,  pode-se  questionar:  não  seriam  estes  e  outros  paralelos  encontrados
                  entre  os  MQ  e  o  NT  oriundos  de  uma  fonte  comum  que  já  contasse  com  essas

                  semelhanças? Presume-se que, em muitos casos, o que de fato serviu como base aos
                  escritos  do  NT  foram  composições  extraídas  diretamente  dos  livros  que  viriam  a

                  compor  o  AT  no  século  I.  De  forma  resumida,  pode-se  dizer  que  essas  influências
                  existem. No entanto, os documentos do mar Morto apresentam-se como um prisma mais

                  fidedigno para compreender certas passagens. O exemplo usado acima dos “filhos da

                  luz” (benei ’or) pode  expressar  bem isso.  No  AT, a  expressão  “filhos  de ...”  ocorre
                  diversas  vezes  para  representar  ora  um  grupo  étnico  ou  uma  classe  (e.g. “filhos  do

                  Oriente” [benei qédem], Is 11:14; “filhos de Israel” [benei Isra’el], Jl 4:16; “filhos dos

                  profetas”  [benei  ha-nabî’îm],  1Rs  20:35),  ora  um  grupo  possuidor  de  uma  função
                  dentro da teologia judaica (e.g. “filhos da humanidade” [benei ’adam], Dn 10:16, cf.

                  SCHÖKEL,  2004:107).  A  polarização  desse  mundo  teológico  em  luz  e  trevas  (ou
                  escuridão) também é encontrada no AT, sobretudo nos escritos proféticos (e.g. Is 5:20;

                  9:1; 45:7; Jr 13:16; Jl 2:2). Essas nomenclaturas, por sua vez, nunca são combinadas no
                  AT.  A  idéia  de  grupo  ou  classe  representada  pela  expressão  “filhos  de  ...”,  com  o

                  simbolismo  dual de luz e trevas  só  é encontrada  em Qumran  e no  NT.  Na literatura

                  judaica, anterior e posterior a 70 d.C., esses termos não são encontrados em conjunto.
                         A  atribuição  ao  AT  como  fonte  única  aos  escritos  cristãos  não  é  correta.  Os

                  escritos  cristãos  apresentavam-se  como  “continuadores”  e  “confirmadores”  da
                  mensagem do AT (muitas vezes com atribuições falsas e equivocadas), o que pode dar a

                  entender que o AT seria a única fonte para a redação dos escritos cristãos.
                         O contexto histórico em que os livros do NT foram escritos foi completamente

                  diferente do vivido pelos autores do AT. A influência da língua e cultura gregas já se

                  fazia presente há muito tempo no Mundo Mediterrâneo, incluindo a Palestina desde a
                  época  dos  Macabeus.  A  incorporação  da  língua  grega  trouxe  consigo  uma  tradição
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