Page 42 - Os Manuscritos do Mar Morto
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                  filosófica e literária nunca utilizadas na Bíblia Hebraica. Gêneros como a biografia, a

                  prosa e a utilização de cartas – comuns na literatura e práticas greco-romanas da época –
                  criaram  novas  fórmulas  quando  unidas  à  literatura  do  Oriente  Próximo.  O  resultado

                  disso  vê-se no  conteúdo  do  NT,  que  na  verdade  abarca  com  uma  mescla  de  formas
                  literárias de diversas influências.

                         Em várias passagens do NT podemos perceber a influência de diversas correntes
                  de pensamento e ideologias sectárias. Uma delas foi o gnosticismo. Mais do que uma

                  forma  de  pensamento  sectário,  o  gnosticismo  compunha-se  de  elementos  sincréticos

                  unidos  a  diversas  formas  de  manifestações  religiosas  durante  os  primeiros  séculos
                  cristãos. O Evangelho de João  foi durante muito tempo  considerado como um  ótimo

                  exemplo. Na sentença “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32), se
                  encontra o princípio da busca da gnose, próprio das seitas gnósticas do século I. Este

                  Evangelho, até pouco antes da descoberta dos MQ, era tido por pesquisadores como um
                  livro  procedente  de  uma  tradição  cristã-gnóstica,  conseguindo  sobreviver  como

                  canônico  ao  contrário  de  muitos  outros  escritos  gnósticos  que  foram  reprimidos,

                  proibidos e destruídos pelos Pais da Igreja. Felizmente, em uma descoberta quase tão
                  importante  quanto  a  dos  MMM,  na  cidade  egípcia  de  Nag  Hammadi,  camponeses

                  descobriram no ano de 1945 uma série de jarros de barro que continham exemplares de

                  livros  gnósticos  em  língua  copta  que  servem  desde  então  como  auxílio  para  a
                  compreensão  de  como  era  o  pensamento  gnóstico.  No  caso  dos  escritos  joaninos,

                  considerados durante muito tempo como uma junção da tradição gnóstica com a cristã,
                  percebeu-se que havia mais similaridades com os MQ do que com os escritos gnósticos,

                  caindo por terra as proposições iniciais sobre seus livros.
                         Além  de  grupos  gnósticos,  mas  em  menor  escala,  havia  grupos  ascetas  que

                  certamente  exerceram  grande  influência  sobre  pensadores  religiosos  tanto  antes  do

                  nascimento do cristianismo como durante o período em que este começou a dar seus
                  primeiros passos. Nesse aspecto, João Batista também é considerado um bom exemplo.

                  Sem  dúvida,  ele  foi  um  indivíduo  de  grande  destaque  que  influenciou  comunidades
                  religiosas durante seus dias. Um dos casos mais conhecidos que envolve seu nome até

                  os  dias  de  hoje  é  o  dos  mandeanos.  Corrente  religiosa  considerada  gnóstica  que
                  sobrevive  atualmente  em  pequenas  comunidades  no  Irã  e  Iraque  (e  parcamente  em

                  outros lugares do mundo), os mandeanos acreditam que João Batista era o verdadeiro

                  Messias.  A  seita  se  opunha  aos  cristãos  no  século  I,  por  considerar  Jesus  como  um
                  “falso  profeta”  que  perverteu  os  ensinamentos  de  Batista.  Seus  preceitos  centrais
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