Page 40 - Os Manuscritos do Mar Morto
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                                         Quem é justo diante de ti quando é julgado?
                                         Nenhum espírito pode responder à tua repreensão,
                                         Ninguém pode manter-se diante de tua ira.
                                         A todos os filhos de tua verdade
                                         Os levas ao perdão em tua presença,
                                         Os purificas de seus pecados
                                         Pela grandeza de tua bondade
                                         E na abundância de tua misericórdia,
                                         Para faze-los estar em tua presença
                                         Por todo o sempre.
                                         Porque é um Deus eterno
                                         E todos os teus caminhos permanecem de eternidade em eternidade.
                                         E não há ninguém fora de ti
                                         Que  é  o  homem  vazio,  dono  de  vaidade,  para  compreender  tuas  grandes
                                         obras maravilhosas? (1QH 15:28-32). 26


                         A  justificação  em  Paulo  recorre  aos  mesmos  argumentos  apresentados  pelos
                  autores dos MQ. A sensibilidade dos poetas qumrânicos ante a pecaminosidade humana

                  produz um arcabouço teológico complexo para a explicação dessa situação. Não é de se
                  estranhar  que  se  encontre  dentro  dessas  explicações  a  dualidade  necessária  para  se

                  entender o processo de resignação da condição pecaminosa. Enquanto de um lado há a
                  impiedade,  a  transgressão,  a  perversão,  o  pecado;  do  outro  temos  a  purificação  e  a

                  misericórdia.

                         A  dualidade  encontrada  em  João  entre  espírito/carne,  luz/trevas,
                  verdade/falsidade etc.,  é  também  corrente  em  Paulo.  Um  texto  paulino  sempre

                  lembrado que expressa essa dualidade qumrânica é o de 2Cor 6:14-7:1; note como o

                  autor trabalha com esse dualismo:



                                         Não  formeis  parelha  incoerente  com  os  incrédulos.  Que  afinidade  pode
                                         haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e
                                         as  trevas?  Que  acordo  entre Cristo  e  Beliar?  Que  relação  entre  o  fiel  e  o
                                         incrédulo? Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, nós é
                                         que somos o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: Em meio a
                                         eles  habitarei  e  caminharei,  serei  o  seu  Deus,  e  eles  serão  o  meu  povo.
                                         Portanto, saí do meio de tal gente, e afastai-vos, diz o Senhor. Não toques o
                                         que seja impuro, e eu vos acolherei. Serei para vós um pai, e serei para mim
                                         filhos  e  filhas,  diz  o  Senhor  todo-poderoso.  Caríssimos,  de  posse  de  tais
                                         promessas  purifiquemo-nos  de  toda  mancha  da  carne  e  do  espírito.  E
                                         levemos a termo a nossa santificação no temor de Deus.


                         O dualismo como encontrado nos textos de 1QS não possui semelhanças apenas

                  com os  escritos joaninos.  Como  podemos ver, o  dualismo  paulino também apresenta
                  características muito próximas.


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                    Hino trabalhado na íntegra na p. 62, seguindo a tradução de Norbert Lohfink.
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