Page 32 - Os Manuscritos do Mar Morto
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inquisição do presente”, a dupla seleciona simplesmente os autores cujas teses foram as
mais excêntricas nos assuntos relacionados ao cristianismo, como as de John Allegro,
Duppont-Sommer, Edmund Wilson e Robert Eisenman.
O contra-ataque por parte dos outros estudiosos foi imediato. Um ano após o
lançamento desse livro, o fundador e editor da revista Biblical Archaeology Review,
Hershel Shanks, dedica um capítulo inteiro de um livro por ele organizado para discutir
as teses de Baigent e Leigh, autores do livro. Shanks critica a polêmica criada pelos
autores principalmente em sua tese central, de que havia uma prestação de contas do
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International Team para com a École Biblique, que por fim recebia orientação direta
com o Vaticano. A despeito de a dupla fazer comentários apreciativos sobre a campanha
da revista BAR em favor da liberação dos manuscritos ainda secretos (da qual Shanks
estava à frente), Shanks afirma que tal acusação não tem fundamento, e que “é tão
cheia de falhas que chega a ser absurda”. Pior ainda, segundo Shanks, é basear-se na
idéia de que “os estudiosos independentes dos dias de hoje (1992) possam ser forçados
por intimidação a reprimir suas opiniões” (1993:299-300, grifo meu).
Entre os estudiosos independentes que eram contra o International Team, deve-
se lembrar que alguns pertenciam ao clero católico como Robert North, Joseph Fitzmyer
e José O’Callaghan, o que rechaça a inocente idéia de pesquisadores trabalharem sob a
égide da Igreja católica. Shanks lembra ainda que, ao contrário do que a atividade
sensacionalista pudesse apresentar, estudiosos católicos e instituições de pesquisa
bíblica à qual estes estão ligados se mantêm como vanguardistas nos estudos bíblicos
(cf. 1993:299).
Com idéias similares às de Shanks, Julio Trebolle Barrera, membro do Comitê
Internacional de edição dos Manuscritos do Mar Morto, expressa a seguinte opinião
sobre esse tipo de material:
O fato de se passarem mais de quarenta anos sem que viesse à luz a
totalidade dos manuscritos encontrados nas grutas do mar Morto deu lugar a
suspeitas que ultrapassaram em algumas ocasiões os limites do razoável. O
verdadeiramente escandaloso é o próprio escândalo: que uma imensa faixa
de público leitor e informado e os meios de comunicação que os abastecem a
leitura e as imagens concedam total credibilidade a “suspeitas” e teorias
muito minoritárias e desconfie, ao contrário, do juízo majoritário dos peritos.
O escândalo de Qumran constitui mais um fenômeno social do que
acadêmico. O escandaloso é que uma mistura adequada de informação
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Alvo de polêmica para os críticos, a École Biblique et Archéologique Française desempenhava o papel
de financiar pesquisas religiosas, porém; as críticas eram feitas a esta instituição por ela ter sido criada
pela Igreja católica (1890); podendo, na opinião dos críticos, ter uma forte ligação com o Vaticano.