Page 27 - Os Manuscritos do Mar Morto
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1.2 AS INTERPRETAÇÕES CONTEMPORÂNEAS ACERCA DA
LITERATURA DE QUMRAN E OS ESCRITOS CRISTÃOS
As descrições trazidas por esses autores do século I d.C. servem como auxílio
para se interpretar os MQ. Se utilizando delas, o historiador e arqueólogo Ernest Renan
(1823-1892), em seu livro La Vie de Jesus (A vida de Jesus), de 1863 (ou seja, bem
antes da descoberta dos MQ), dizia que o cristianismo foi um “essenismo que teve
amplo sucesso” e que Jesus foi o melhor exemplo do que era ser um essênio. Segundo
Renan, os essênios eram apartados das questões políticas, eram ascetas, místicos e
celibatários, e o Jesus histórico que ele revelou possuía também essas características.
Edmond Bourdeaux Szekely (1900-1979), filólogo e lingüísta, tradutor de textos
aramaicos atribuídos aos essênios, publicou vários livros baseando-se nos escritos de
Fílon, Plínio, Josefo, e em manuscritos existentes na Biblioteca do Vaticano, dos
Habsburgo em Viena e na Biblioteca do Museu Britânico (1981:11). Famoso por
traduzir um manuscrito na década de 1920 que recebeu o nome de Evangelho da Paz,
Szekely percorre a mesma linha de Renan ao creditar ao Jesus dos Evangelhos o melhor
exemplo do modo de vida essênio.
Outros pesquisadores têm opiniões que vão ainda mais longe, atribuindo aos
essênios a escrita dos Evangelhos do NT, utilizando como principal argumento o fato de
não haver nenhuma citação explícita a estes, mas somente aos fariseus e saduceus.
Se antes da descoberta dos MQ alguns estudiosos já afirmavam uma ligação do
cristianismo com o essenismo, as especulações aumentaram ainda mais depois da
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descoberta. Um grande especialista do “International Team”, John Marco Allegro
(1923-1988), fazia declarações aparentemente comprometedoras ao cristianismo. 12
Dizia que os essênios de Qumran já possuíam elementos cristãos uns cem anos antes de
11 No ano de 1952, em Jerusalém oriental, é criado o polêmico “International Team” no Museu
Arqueológico da Palestina (mais tarde renomeado Museu Rockefeller) pertencente à Jordânia. Essa
equipe ficou responsável pela vasta maioria dos manuscritos. Muitos dos manuscritos obtidos pelo Museu
Arqueológico da Palestina tiveram de ser comprados das mãos de mercadores sustentados por beduínos
que descobriram algumas grutas antes dos arqueólogos. O Governo Jordaniano ajudava na aquisição, mas
ainda assim não era o suficiente. Para tanto, foi necessário a ajuda de universidades e instituições, que em
troca, recebiam uma compensação pelo direito de publicação e nomeavam um especialista para formar
esta equipe. O chefe do International Team foi o padre dominicano Roland De Vaux. Sob seu comando
estavam os norte-americanos Frank More Cross e Patrick Skenan, os ingleses John Allegro e John
Strugnell, o polonês J. T. Milik, o francês Jean Strarky e o alemão Clauss-Huno Hunzinger. Essa foi a
composição da equipe inicial.
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Disse em uma certa ocasião a John Strugnell: “Se eu fosse você, não me preocuparia com aquele
emprego teológico. Quando eu tiver terminado a minha pesquisa, não lhe restará nenhuma igreja à qual
se filiar” (BAIGENT, 1994: 68).