Page 26 - Os Manuscritos do Mar Morto
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                  descobertas  dos  MQ). As  influências  e  trocas  de  capital  religioso  foram  constantes

                  durante esse período,  sobretudo para o  cristianismo,  que apesar de ser  um  fenômeno
                  novo com peculiaridades, apropriou-se de certos aspectos religiosos judaicos que não

                  permitiam que fosse enxergado como de todo “exótico” frente ao ambiente em que se
                  originava. A análise dos documentos de Qumran pode ajudar a entender como se deram

                  algumas dessas influências. 10
                         Um exame apurado das fontes clássicas pode nos dar uma interpretação bastante

                  segura quanto à identidade dos homens de Qumran. Esse material, somado a diversos

                  textos encontrados nas grutas do mar Morto, dá uma sabe sólida para acreditar que os de
                  Qumran seguramente  eram  essênios.  Ir  de  encontro  à  “hipótese  essênia”  resulta  na

                  criação de muitas afirmações que não se encaixam facilmente, sempre com lacunas em
                  que não há explicação coerente. Conforme o comentário do renomado erudito bíblico

                  Frank More Cross,



                                         O estudioso  que  “tivesse receio”  de identificar a seita de  Qumran com os
                                         essênios  se  colocaria  numa  posição  espantosa:  deveria  propor  seriamente
                                         que  duas  facções  importantes  criaram  grupamentos  comunais  na  mesma
                                         região do deserto em torno do mar Morto e viveram efetivamente lado a lado
                                         durante dois séculos, esposando as mesmas opiniões estranhas,  cumprindo
                                         atos  de  purificação,  refeições  rituais  e  cerimônias  semelhantes  ou
                                         praticamente iguais. Ele deveria supor que uma delas, descrita em detalhes
                                         por autores clássicos, desapareceu sem deixar vestígios de suas construções
                                         ou  mesmo  restos  de  utensílios  de  cerâmica;  da  outra,  sistematicamente
                                         ignorada pelas fontes clássicas, restaram extensas ruínas e até mesmo uma
                                         grande  biblioteca.  Eu  prefiro  ser  afoito  e  categoricamente  identificar  os
                                         homens de Qumran com seus permanentes convivas, os essênios (1993:26).


                         Após elucidada a importante questão sobre a identidade dos homens da seita do

                  mar Morto, tornar-se-á mais fácil a compreensão das posições tomadas a partir de agora
                  neste trabalho.












                  10  Não só “trocas simbólicas” são depreendidas através destes documentos, assim como não aprendemos
                  apenas sobre as origens do cristianismo. Lawrence Schiffman apresenta em um artigo as contribuições
                  dadas pelas descobertas de Qumran para a compreensão do judaísmo farisaico do século I (SCHIFFMAN,
                  Lawrence. Uma nova luz sobre os fariseus. In: SHANKS, H. (Org.). Para compreender os Manuscritos
                  do Mar Morto. Trad. Laura Rumchinsky. RJ: Imago, 1993.). Em textos como o Pesher Naum (4QpNah),
                  Schiffman  consegue  discernir  que  trechos  do  texto  fazem  uma  crítica  aos  fariseus  (denominados  de
                  “Efraim”) e a seus ensinamentos. Esse exemplo demonstra que por mais que os grupos fossem contrários,
                  conheciam muito bem um ao outro.
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