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negação. Pessoas que não têm ideia da complexidade do cativeiro me negam a capacidade
        de julgar minhas próprias experiências ao pronunciar três palavras: ‘Síndrome de Estocolmo’.

          Síndrome de Estocolmo é um termo usado para descrever um fenômeno psicológico em
        que  os  reféns  manifestam  sentimentos  positivos  em  relação  aos  sequestradores.  Esses
        sentimentos fazem com que as vítimas simpatizem ou mesmo colaborem com os criminosos

        —  isto  é  o  que  dizem  os  compêndios.  Um  diagnóstico  classificatório  que  rejeito
        enfaticamente. Por mais simpático que pareça ser o uso do termo, seu efeito é terrível, pois

        transforma as vítimas em vítimas novamente, ao tirar delas a capacidade de interpretar a
        própria história e ao transformar as experiências mais significativas em produto de uma
        síndrome. (O grifo é meu.)

          O  termo  aproxima  de  algo  censurável  o  próprio  comportamento  que  contribui
        significativamente para a sobrevivência da vítima. Aproximar-se do sequestrador não é uma
        doença. Criar um casulo de normalidade no âmbito de um crime não é uma síndrome. É

        justamente o oposto. É uma estratégia de sobrevivência em uma situação sem saída — e é
        muito  mais  verdadeiro  que  a  ampla  categorização  dos  criminosos  como  bestas
        sanguinolentas e das vítimas como cordeiros indefesos, na qual a sociedade quer se basear”.


          Dá para entender por que, passado o clamor inicial, Natascha Kampusch tornou-se uma
        vítima indigesta.

          Chegaram a sugerir a Natascha que trocasse de nome para não ser assinalada pelo que
        viveu. Como se isso fosse possível. E, caso fosse possível, como se anular seu passado não

        anulasse  com  ele  uma  parte  essencial  de  si  mesma.  “Que  tipo  de  vida  seria  essa,
        especialmente  para  alguém  como  eu,  que  durante  os  anos  de  cativeiro  lutara  para  não
        perder a identidade?”, questiona.

          Com surpreendente maturidade, Natascha entendeu que só tem uma vida aqueles que
        aceitam as suas marcas como parte do vivido — mas não como tudo o que são. E, assim, ela

        não  se  fixou  nas  marcas  nem  se  deixou  paralisar  pelo  lugar  de  vítima  eterna.  Natascha
        Kampusch seguiu com seu corpo e sua vida marcada em direção ao futuro, pronta para ser
        tatuada por novas experiências. Como é, afinal, a vida de todos nós.

          Natascha Kampusch não era Chapeuzinho Vermelho e, se Wolfgang Priklopil era um lobo,
        era um bem patético. Ela não teve a chance de ouvir os contos de fadas muitas e muitas

        vezes na hora de dormir para ter certeza de que o horror não aconteceria com ela, como se
        passa nas noites das crianças sortudas. Natascha foi arrancada da infância para ser a escrava
        de um adulto perturbado e talvez tão assustado quanto ela. E o horror continuava lá quando

        acordava presa em um porão escuro.
          Aos 22 anos, Natascha precisou transformar o vivido em história contada. Para ser capaz

        de libertar-se e seguir adiante, porém, era fundamental ser fiel à complexidade da vida e às
        nuances dos personagens. Queriam dela mais um remake estereotipado do que costuma ser
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