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como este, e temos o privilégio de assisti-lo em uma sala de cinema, desta vez sem pipoca
        nem conversas paralelas, tenho a impressão de que algo muda no andar do mundo. Pelo

        menos no andar do meu mundo muda. É o que a arte faz com a gente. É o que a poesia faz
        com Mija.
          Yoon Jeong-hee, que interpreta Mija, é a grande dama do cinema da Coreia do Sul. Como

        Fernanda Montenegro é a nossa. Ela não filmava havia 15 anos. Foi convencida a voltar à
        telona pelo diretor Lee Chang-dong ao ser tomada pelo roteiro escrito para ela. Sua atuação

        é mais do que esplêndida. E eu ficaria aqui por mais duas linhas desfiando adjetivos, mas
        como Mija bem disse à médica: são os substantivos que importam.
          Como eu encontro a poesia? Era a pergunta que Mija fez a muitos, sempre com uma

        caderneta na mão para anotar as palavras que tinha esperança de encontrar pelo caminho.
        Sem saber muito bem de onde viria a poesia, se os versos cairiam maduros na sua cabeça

        antes de se esborracharem no chão. A sua pergunta é a mesma de todos nós. É, talvez, a
        grande pergunta. Como encontrar beleza na bestialidade das horas que nos consomem e nos
        levam à morte e ao esquecimento? Alguns de nós conhecem a pergunta, andam às voltas

        com ela pelos dias. Outros, apenas intuem. E outros ainda preferem ignorá-la por inércia.
        Mas as perguntas definidoras da vida boiam para sempre no leito de nosso rio, como o corpo

        da menina morta. Querendo ou não, mesmo para quem finge não ver.
          Ao percorrermos com Mija a sua trajetória, descobrimos que a poesia só existe encarnada
        na vida. Ao ser confrontada com a sordidez da realidade, ela tenta de todas as maneiras

        proteger a pureza da poesia. Mas não é possível. Mesmo a troca de olhares entre ela e a mãe
        da menina morta é carregada de compreensão, mas também de dor. Como é assinalada pela

        beleza a cena em que o policial joga peteca com Mija em frente à casa dela. Ainda assim, não
        há como ela esquecer que o policial chegou até ali por causa do crime do neto. E a felicidade
        de Mija era justamente ver esse neto comer. Este neto que por muito tempo era para ela

        toda a pureza.
          O mundo pisoteia as flores de Mija a todo momento, do mesmo modo que faz com cada

        um de nós. E Mija precisa encarar toda uma travessia para compreender que a poesia só é
        poesia porque contaminada. Só se torna poesia ao se diferenciar. Mas, para se diferenciar,
        precisa antes se enfiar inteira nas tripas do mundo. A poesia é primeiro uma escolha. De Mija

        e de cada um.
          Mija descobre que a poesia que busca — e finalmente encontra — resiste na brutalidade
        do cotidiano — misturada, infectada e conspurcada, mas ainda assim íntegra à maneira que

        só a poesia pode ser ao dar sentido a uma vida pela palavra. É aos poucos, bem aos poucos,
        que Mija percebe que a poesia dela só pode ser achada nas escolhas duras que precisou fazer

        no momento final.
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