Page 45 - ASAS PARA O BRASIL
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se queríamos ouvir uma música que escolhêssemos. Eu pedi o primeiro
                  movimento do trio para piano de Tchaikovsky que acho belo e triste.

                   O jovem príncipe, vestido com uma “disais” branca ouvia a música com um
                  recolhimento misturado de surpresa, e veio até a nossa mesa para saber

                  qual era o nome desta música. Ele nos convidou a sentar-nos à sua mesa.
                  Passamos  uma  boa  parte  da  noite  ao  som  de  belas  músicas  tomando  o
                  melhor  champanhe  e  acompanhando  o  espetáculo  incontornável  das
                  langorosas dançarinas orientais. O príncipe, que tinha feito parte de seus
                  estudos na Suíça e falava um francês excelente, nos convidou para ir ao seu
                  iate no Mediterrâneo. Prometemos que voltaríamos a nos encontrar após
                  está amigável e calorosa noitada, o que, é claro, nunca aconteceu.


                  Evidentemente,  as  coisas  não  se  passavam  sempre  de  maneira  tão
                  harmoniosa.  Foi  assim  que  conheci  na  África,  as  prisões  da  Costa  do
                  Marfim e do Quênia.

                  Pensando bem,  com o passar do tempo, os eventos se chocam e  alguns
                  momentos curiosos ou trágicos ressurgem.


                  Em setembro de 1977, na Costa do Marfim, durante o congresso do IISA
                  (Instituto Internacional de Ciências Administrativas) que trata das grandes
                  tendências de evolução das administrações públicas, eu tinha participado
                  das reuniões dos comitês de organização sob a égide do chefe de Estado e
                  de seus ministros.


                  Uma noite, me pediram para acompanhar o presidente do congresso, um
                  americano, ao aeroporto Félix Houphouët-Boigny.

                         Só  tive  o  tempo  de  vestir  uma  camisa  e  sai  no  meio  da  noite
                  acompanhado por uma comissária da organização do evento. Os motoristas
                  oficiais tinham terminado o serviço, então peguei um carro do congresso

                  para ir buscar o VIP.

                  No  caminho,  fomos  detidos  por  uma  blitz  de  controle  com  militares
                  armados até os dentes. O oficial pediu o meu documento de identidade e
                  foi  aí  que  me  dei  conta  de  que  os  tinha  esquecido  no  quarto  do  hotel
                  “Ivoire”, devido à minha precipitação e cansaço.


                  O  guia  tentou  explicar  o  nosso  papel  na  organização  do  evento.  Sem
                  resultado.  Fui  colocado  num  jipe  e  jogado  numa  cela  comum  em  uma
                  prisão de Abidjan onde aguardei enquanto verificavam a minha identidade;
                  foram horas desagradáveis.
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