Page 46 - ASAS PARA O BRASIL
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Somente às 10h00 do dia seguinte, um carro do governo veio me subtrair
dos meus carcereiros e da sombra dessa prisão encardida. Naquela época,
a Costa do Marfim era atravessada por numerosos mercenários brancos e
talvez me parecesse com algum deles? Era culpa minha: o oficial
marfinense tinha executado ordens. O telefone celular ainda não existia,
teria sido bem útil naquela ocasião.
Ainda não vivíamos no período paranoico do terrorismo como nos dias de
hoje em todo o planeta.
Na África, as relações de conflito religioso ou tribal não são novidade e
duram desde sempre, assim como o racismo e a escravidão.
De volta ao meu escritório numa condição de exaustão, sem barbear,
mesma camisa branca suja de preto, uma mulher loira me esperava aos
prantos com um pedaço de tecido branco na mão; aparentava ser o que
sobrou de um vestido que havia encolhido na máquina de lavar roupa do
hotel.
Com certa agressividade, ela me explicou que na noite anterior, ela tinha
entregado o vestido para a limpeza. Era a esposa do presidente do
congresso e o vestido era aquele que ela iria usar na noite de inauguração
no Palácio Presidencial. Uma camareira a levou para fazer compras nas
lojas de Abidjan. Ela comprou um vestido magnífico na Givenchy e
entregou-me satisfeita e feliz, a conta (salgada) que eu me apressei de
repassar ao diretor do hotel com as minhas saudações e alguns
comentários. Evitamos um escândalo e muito blábláblá. Neste tipo de
dramas, estamos sempre em primeira linha mesmo se não somos
responsáveis de nada. Tem que saber temperar e ter paciência.
Foi também no Quênia que eu tive direito à minha segunda estadia
no xilindró junto com o diretor muito simpático, diga-se de passagem, de
uma grande multinacional especializada em elevadores.
Fazíamos uma viagem de preparação de outra viagem para uma centena de
pessoas da empresa que iria ocorrer seis meses mais tarde.
A empresa em questão existia desde o século XIX.
Durante nosso longo reconhecimento na entrada de uma aldeia perdida na
reserva do Parque Nacional “Tsavo”, eu fiquei cara a cara com o que devia
ser um dos primeiros painéis publicitários da já mencionada empresa,
perdido num lugar onde nenhuma construção poderia suportar um
elevador.