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A prova de que meu pai havia se livrado de sua versão de Alien — O oitavo passageiro, era
        um curativo de cerca de dez centímetros na virilha direita. Meu pai estava vestido com uma

        daquelas camisolas de hospital que devem ter sido inventadas por um sádico. Nem numa
        peça de Zé Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, alguém pode ficar mais nu do que num
        desses aventais que deixam as pessoas com a bunda de fora.

          E a cor, já repararam na cor? Verde-periquito. Nu e vestido de verde-periquito. Sobreviver
        a uma cirurgia não é nada perto de sobreviver à experiência de passar horas e até dias vestido

        com um camisolão verde-periquito aberto na bunda. Anotei na minha agenda: “Ameaçar
        minha filha com assombração eterna caso ela permita que alguém me desvista com um
        avental verde-periquito”.

          Percebi no instante em que as enfermeiras entraram empurrando a maca que meu pai se
        sentia nu, demasiado nu. Mas não pelas razões que eu imaginara. A primeira frase completa

        dele foi para a minha mãe: “Quero a minha aliança”. Minha mãe tirou a aliança que havia
        colocado em seu próprio dedo e devolveu-a ao local de origem, o dedo anular do meu pai.
          No sofá do quarto de hospital, eu já não vestia a Mafalda. Era a própria garotinha de

        cabelos espetados — sem a sua genialidade, mas com toda a sua perplexidade diante do
        mundo dos adultos. Minhas pernas encurtaram e já não alcançavam o chão ao testemunhar

        o recasamento dos meus pais no lusco-fusco do quarto asséptico, ao som do concerto de
        uma nota só do soro gotejando.
          Porque  era  isso.  Depois  de  voltar  do  sono  anestésico,  de  onde  todos  nós,  por  mais

        confiantes que estejamos, tememos não retornar, tudo o que meu pai queria era recasar
        com a minha mãe. Recasaram-se ali, sob os meus olhos de bolinha de gude, ela com dor nos

        joelhos, ele com uma sonda na uretra. Naquele momento, o gato tinha mesmo comido a
        minha língua.
          A segunda vestimenta que meu pai exigiu foi sua prótese dentária. E a terceira, seu relógio

        de pulso. Com o amor da minha mãe no dedo, todos os seus dentes para mastigar a vida e o
        tempo amarrado ao braço, meu pai já não estava mais nu. E assim, completo, começou a

        acariciar a minha mãe. Lua de mel numa hora dessas?, eu e Mafalda pensamos. Eu te amo,
        ela  disse,  aos  quase  77  anos.  Eu  te  amo,  ele  respondeu,  com  quase  82.  Muito,  ele
        acrescentou.

           Eu estou aqui!, gritei eu, com uns... digamos... nove anos. Oquei, cinco... no máximo.
          Eu estava ali. Mas sobrava. Tive certeza disso do mesmo modo que tinha quando, bem

        pequena (ou nem tão pequena, para ser honesta), costumava fingir que dormia. Meu pai ou
        minha mãe, com movimentos de ninja, fechavam a porta do quarto deles que eu exigia que
        permanecesse aberta. Eu, então, a ninja júnior, esperava alguns minutos e escancarava a

        porta para flagrá-los fazendo na época eu não sabia o quê, mas tinha certeza de que não
        deveria permitir que acontecesse.
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