Page 206 - C:\Users\Leal Promoções\Desktop\books\robertjoin@gmail.com\thzb\mzoq
P. 206
A prova de que meu pai havia se livrado de sua versão de Alien — O oitavo passageiro, era
um curativo de cerca de dez centímetros na virilha direita. Meu pai estava vestido com uma
daquelas camisolas de hospital que devem ter sido inventadas por um sádico. Nem numa
peça de Zé Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, alguém pode ficar mais nu do que num
desses aventais que deixam as pessoas com a bunda de fora.
E a cor, já repararam na cor? Verde-periquito. Nu e vestido de verde-periquito. Sobreviver
a uma cirurgia não é nada perto de sobreviver à experiência de passar horas e até dias vestido
com um camisolão verde-periquito aberto na bunda. Anotei na minha agenda: “Ameaçar
minha filha com assombração eterna caso ela permita que alguém me desvista com um
avental verde-periquito”.
Percebi no instante em que as enfermeiras entraram empurrando a maca que meu pai se
sentia nu, demasiado nu. Mas não pelas razões que eu imaginara. A primeira frase completa
dele foi para a minha mãe: “Quero a minha aliança”. Minha mãe tirou a aliança que havia
colocado em seu próprio dedo e devolveu-a ao local de origem, o dedo anular do meu pai.
No sofá do quarto de hospital, eu já não vestia a Mafalda. Era a própria garotinha de
cabelos espetados — sem a sua genialidade, mas com toda a sua perplexidade diante do
mundo dos adultos. Minhas pernas encurtaram e já não alcançavam o chão ao testemunhar
o recasamento dos meus pais no lusco-fusco do quarto asséptico, ao som do concerto de
uma nota só do soro gotejando.
Porque era isso. Depois de voltar do sono anestésico, de onde todos nós, por mais
confiantes que estejamos, tememos não retornar, tudo o que meu pai queria era recasar
com a minha mãe. Recasaram-se ali, sob os meus olhos de bolinha de gude, ela com dor nos
joelhos, ele com uma sonda na uretra. Naquele momento, o gato tinha mesmo comido a
minha língua.
A segunda vestimenta que meu pai exigiu foi sua prótese dentária. E a terceira, seu relógio
de pulso. Com o amor da minha mãe no dedo, todos os seus dentes para mastigar a vida e o
tempo amarrado ao braço, meu pai já não estava mais nu. E assim, completo, começou a
acariciar a minha mãe. Lua de mel numa hora dessas?, eu e Mafalda pensamos. Eu te amo,
ela disse, aos quase 77 anos. Eu te amo, ele respondeu, com quase 82. Muito, ele
acrescentou.
Eu estou aqui!, gritei eu, com uns... digamos... nove anos. Oquei, cinco... no máximo.
Eu estava ali. Mas sobrava. Tive certeza disso do mesmo modo que tinha quando, bem
pequena (ou nem tão pequena, para ser honesta), costumava fingir que dormia. Meu pai ou
minha mãe, com movimentos de ninja, fechavam a porta do quarto deles que eu exigia que
permanecesse aberta. Eu, então, a ninja júnior, esperava alguns minutos e escancarava a
porta para flagrá-los fazendo na época eu não sabia o quê, mas tinha certeza de que não
deveria permitir que acontecesse.