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Em suas afirmações na imprensa e no Twitter, o pai de Thor apressou-se em culpar o morto
        pela própria morte. E afirmou que Wanderson poderia ter matado não só a si mesmo, como

        também seu filho e o amigo que o acompanhava — o que é altamente improvável. Apenas
        0,3% dos motoristas envolvidos em atropelamento com vítima fatal morrem.
          Enquanto as investigações não forem concluídas, nenhum de nós — e muito menos Eike

        — tem o direito de condenar alguém. Até agora, ninguém — nem mesmo Eike — pode
        afirmar se a morte de Wanderson foi fatalidade ou homicídio. Até agora, ninguém — nem

        mesmo Eike — pode declarar se a morte de Wanderson é responsabilidade exclusiva da
        vítima, é responsabilidade exclusiva de Thor ou é responsabilidade de ambos.
          Infelizmente para todos, já pairam dúvidas sobre as investigações. É difícil entender, por

        exemplo, por que um carro envolvido em uma morte está na casa de Thor, o investigado —
        e não nas dependências da polícia. Depois da perícia feita no local, o carro foi liberado. As

        demais “diligências” seriam feitas na mansão do Jardim Botânico. “No dia seguinte, meu
        advogado me informou que havia sido feita a perícia do carro no local do acidente, e que o
        carro teria sido liberado pela PRF para que pudéssemos trazê-lo para casa, garantindo deixá-

        lo intacto”, afirmou Thor.
          Segundo o próprio Thor relata na conta no Twitter que criou para dar sua versão dos fatos,

        ele primeiro foi para casa, onde seria atendido pelo médico da família. E só depois, por
        iniciativa própria, foi a um posto da Polícia Rodoviária Federal próximo ao local do acidente
        para  se  submeter  ao  bafômetro  e  demais  procedimentos  exigidos  em  um  caso  de

        atropelamento  com  vítima  fatal.  O  exame  deu  negativo  para  a  presença  de  álcool,  ao
        contrário do resultado de Wanderson, que revelou um índice elevado de álcool no sangue.

          Se Thor não fugiu do local — o que não é um ato louvável, como seu pai quer convencer a
        opinião pública que é, mas uma obrigação —, por que a polícia não fez o que deveria fazer
        na hora em que deveria fazer por sua própria iniciativa? A conta de Thor no Twitter é esta:

        @Thor631. Nela, é narrada sua versão da cronologia dos fatos. Pensado para defendê-lo e
        escrito com método, o relato revela mais do que gostaria.

          É uma pena que as partes nebulosas darão, mais uma vez, algum grau de legitimidade às
        dúvidas sobre a lisura do inquérito policial, mesmo depois da sua conclusão — ou de seu
        arquivamento. Para o futuro em aberto de Thor, pelo futuro interrompido de Wanderson e

        para o Brasil, um país partido pela impunidade dos poderosos, seria fundamental que a
        polícia e o Estado demonstrassem total correção e transparência ao investigar uma morte
        que envolve o filho do homem mais rico da nação.

          A condenação prévia de Thor nas redes sociais e nas conversas de bar deve-se não apenas
        à raiva que parte da população teria dos ricos e poderosos, ou à tendência de se colocar ao

        lado dos mais fracos, mas também à percepção legítima de que os atos criminosos dos ricos
        e poderosos permanecem impunes. A pressa em acusar e condenar Thor não demonstra
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