Page 332 - CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013
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CURSO COMPLETO DE DIREITO AGRÁRIO, Silvia C. B. Opitz e Oswaldo Opitz, Ed. Saraiva, 7ª ed., 2013



           tário  (cf.  A.  Ruiz,  Instituições,  cit.,  p.  288).  Justifica-se essa medida da mesma
           forma que a já examinada, dos pacta protimeseos, em favor dos foreiros e arrenda-
           tários, sendo que para estes dependia a preferência do acordo de vontades. Havia
           uma grande preocupação em manter o aldeão no cultivo da terra, mas dever-se-ia
           compensá-lo com direitos que reconhecessem como fazendo parte do solo o trabalho
           nele incorporado durante anos. Essas medidas, no fundo, tinham origens econômicas
           e sociais, visto que visavam proteger o operário-agricultor que cultivava e melhora-
           va a terra concedida, com seu trabalho e de seus familiares. O trabalho era um bem
           como qualquer outro e  se  incorporava ao  solo  (superficies  solo  cedit).  Era uma
           benfeitoria construída sobre o terreno alheio, portanto devia incorporar-se a ele e
           tomava-se assim seu acessório. Daí o direito de reter o terreno cultivado, tanto por
           parte do enfiteuta como do arrendatário, quando fosse vendido. Do caráter conven-
           cional, passou ao legal. No direito agrário, a proteção alcança tanto o contrato es-
           crito como o verbal, por tempo certo ou não. O CC, em seu art. 576, somente pro-
           tege  o arrendatário  se  houver cláusulas  de  sua vigência no  caso de  alienação e
           constar de registro público. Isso não se dá no arrendamento rural, porque o novo
           proprietário é obrigado a respeitar o contrato. Não se exige mais, tanto no arrenda-
           mento como na parceria, que no contrato conste tal cláusula de vigência em caso de
           alienação, porque o novo adquirente não pode desrespeitar o contrato e desapossar
           o arrendatário ou parceiro-outorgado (ET, art. 92, § 5Q, e art. 15 do seu Regulamen-
           to). A regra se estende a todos os contratos agrários, porque "a alienação do imóvel
           rural. .. não interrompe os contratos agrários  ... "(Regulamento, art.  15).
              A morte do proprietário também não interrompe o contrato agrário. É um velho
           princípio,  como  apontamos  acima.  O  art.  1.198  do  CC/16  (v.  CC/02,  art.  577)
           dispõe que, morrendo o proprietário, transfere-se aos seus herdeiros o arrendamen-
           to por tempo determinado.  Essa regra cede diante da norma especial do  art.  92,
           § 5Q,  do ET. A lei nova foi mais radical. Alterou o CC nesta parte. O conflito exis-
           tente entre ambos resolve-se pela incidência da nova lei especial (LINDB, art. 2Q,
           e Regulamento, art. 26, parágrafo único).
              As  medidas decorrentes do ET e de seu Regulamento são em benefício dos
           arrendatários e parceiros rurais, de modo que, a todo momento, nos contratos por
           tempo indeterminado, podem eles desocupar o imóvel arrendado ou dado em par-
           ceria. O mesmo não se dá se o arrendamento ou parceria são por prazo certo, de-
           terminado, porque terão de pagar, proporcionalmente, a multa prevista no contrato
           (CC, art. 571).
              Os meios de aquisição da propriedade imóvel continuam os mesmos e regula-
           dos pelo CC, bem como por lei especiais, como o caso da promessa de compra e
           venda (Lei n. 649/49).
              Diante do respeito ao contrato, o novo adquirente não pode mais usar do re-
           médio possessório contra o arrendatário ou parceiro-outorgado para haver o imóvel
           adquirido. No entanto, pode usar a ação de despejo na forma do art. 32 do Regula-
           mento (Dec. n. 59.566/66). A orientação anterior era em sentido contrário, porque
           o contrato não se prorrogava, e a detenção, findo o prazo, era ilegal e constituía
           esbulho, daí a ação de imissão de posse. O novo proprietário do imóvel não é obri-
           gado a indenizar benfeitorias feitas pelo arrendatário ou parceiro, antes da transfe-
           rência da propriedade, salvo se a isso se comprometeu, expressamente. Isto não
           implica  violar  o  direito  do  arrendatário  conferido  no  art.  95,  VII,  do  ET
           e art. 25, § 1 Q' de seu Regulamento, porquanto são duas situações distintas.

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